"Nada se espalha com maior rapidez do que um boato" (Virgílio)
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China Comunista (Parte 07/07)


Luta pelo poder

A morte de Mao Tsé-Tung reacendeu a luta pelo poder dentro do PCCh. O conflito partidário foi breve. A facção de direita (ou seja, os comunistas pragmáticos) obteve uma expressiva vitória. Os novos dirigentes desfecharam uma perseguição contra as facções mais radicais de esquerda. A esposa de Mao e seus aliados mais próximos, por exemplo, foram banidos definitivamente da política chinesa.
O Comitê Central do PCCh tornou público um relatório em que assinalava: "A história mostrou que a Revolução Cultural, laborando em erro e capitalizada por claques contra-revolucionárias, levou à comoção intestina e trouxe a catástrofe para o Partido, para o Estado e para todo o povo".
Na perspectiva do líder revolucionário Mao Tsé-Tung, porém, temia-se que a burocratização e a apatia política e social se consolidassem. Por isso, em toda sua vida, Mao defendeu com bastante veemência que a sociedade chinesa fosse abalada com freqüência por movimentos de massa, como aquele promovido pela Revolução Cultural.

China como potência econômica mundial

Com a morte de Mao, Deng Xiaoping se torna secretário-geral do PCCh e se transforma no dirigente máximo da China, governando o país de 1976 a 1997. Deng Xiaoping promoveu inúmeras reformas econômicas, cujo desdobramento depois de uma década foi a implantação de uma economia de mercado nos moldes capitalistas.
Na década de 1990, as reformas do sistema produtivo se aprofundaram ainda mais e resultaram num vertiginoso crescimento da economia chinesa, cujas bases são os investimentos estatais e o capital estrangeiro (que foi atraído para a China num volume sem precedentes na história do país e do continente asiático).
De acordo com todos prognósticos, por volta do ano de 2030 a China se transformará na maior economia do mundo. O Estado comunista chinês, porém, resistiu politicamente à desagregação da ex-URSS e ao fim do socialismo no Leste europeu. Os dirigentes comunistas chineses mantiveram a China fechada politicamente e governam o país com base na ditadura do partido único.
Uma questão que surge com freqüência no debate político e nos círculos acadêmicos ocidentais é saber até quando a China se manterá politicamente fechada e resistirá às pressões por reformas políticas liberalizantes e democráticas.

China Comunista (Parte 06/07)

Deng Xiaoping

Deng Xiaoping promove reformas econômicas

A Guarda Vermelha, formada por milhões de jovens militantes, se dedicava à doutrinação socialista. Não era, porém, um agrupamento juvenil coeso e disso resultou o surgimento de facções rivais que lutaram entre si, agravando ainda mais o conflito político.
No início dos anos 70, a selvageria e desordem provocadas na sociedade chinesa pela atuação dos militantes da Guarda Vermelha trouxeram enormes problemas políticos para Mao Tsé-Tung. No seio do ELP e do PCCh surgiram críticas cada vez mais contundentes diante do caos e descontrole social e político provocados pelas ações da Guarda Vermelha.
Mao se curvou aos críticos e ordenou o desmonte da Guarda Vermelha e a desmobilização e dispersão dos 18 milhões de jovens. Gradualmente, Mao reconduziu a política chinesa de volta ao centro e reconheceu a necessidade do Estado e da nação chinesa de contar com o apoio de todos os cientistas, técnicos especializados, administradores e educadores que haviam sido purgados e exilados.

Richard Nixon na China e as mudanças na política externa

Na área das relações internacionais, novos conflitos fronteiriços envolvendo a URSS também tiveram influência na mudança da política externa chinesa. A China se aproximou do Ocidente e adotou a doutrina de coexistência pacífica, aceitando o estabelecimento de relações amigáveis com países que tinham sistemas políticos e econômicos distintos.
O ato mais emblemático da reorientação da política externa chinesa foi a visita do então presidente dos EUA, Richard Nixon, à China, em 1972. A Revolução Cultural terminou oficialmente em 1976, ano em que Mao Tsé-Tung morreu, aos 92 anos.

China Comunista (Parte 05/07)


Revolução Cultural

A Revolução Cultural começou oficialmente no outono de 1965. Com apoio do ELP, Mao e seus seguidores coordenaram um amplo expurgo que atingiu todas as esferas da vida social, política e econômica. Membros do PCCh, burocratas, políticos, militares e cidadãos comuns foram atingidos por uma onda repressiva.
A esposa de Mao, Jiang Qing, se transformou na figura dominante nas artes. Chamada de ditadora cultural, Qing exerceu domínio absoluto e determinou o que podia ser escrito, pintado, editado, cantado e exibido nos teatros e cinemas. Muitos cursos universitários foram fechados, professores e diversos profissionais ligados à produção artística perderam seus cargos e foram banidos para o campo.
Os alvos principais da doutrinação política que permeava a Revolução Cultural foram os jovens, em particular os estudantes de nível médio e universitário. Os jovens foram dispensados das aulas e o Estado providenciou alimento, transporte e alojamento para que percorressem o país, de cidade em cidade, como aguerridos militantes de esquerda.

O Livro Vermelho e a Guarda Vermelha

Usando uma braçadeira vermelha em um dos braços, milhões de jovens formaram a Guarda Vermelha. A base doutrinária para a ação dos militantes era o célebre "Livro Vermelho" de Mao.
Um dos trechos do livro dizia: "O pó se acumula se um quarto não é limpo com freqüência, nossas faces ficam imundas se não forem lavadas com freqüência. A mente de nossos camaradas e o trabalho de nosso Partido também podem ficar empoeirados e também precisam ser varridos e lavados. O provérbio 'a água corrente nunca fica choca e os vermes nunca roem uma dobradiça' significa que o movimento constante impede a contaminação pelos germes e outros organismos".
Os militantes da Guarda Vermelha tinham por encargo desfechar a crítica aos revisionistas, aos direitistas, aos burgueses, aos burocratas do Partido e do Estado e até mesmo àqueles que adotavam estilos ocidentais de comportamentos. Além da crítica, eles também humilhavam e castigavam todos que resistiam à doutrinação socialista.
Durante o período em que a Guarda Vermelha atuou, a sociedade chinesa foi abalada por perseguições, execrações e julgamentos sumários em praças públicas. A Guarda Vermelha cometeu muitas atrocidades e espalhou o terror pela China. Também ocorreram muitos conflitos, alguns deles de grande proporção, principalmente no final da década de 1960, envolvendo militantes extremistas da Guarda Vermelha e as massas.

China Comunista (Parte 04/07)


O Livro Vermelho de Mao e a Revolução Cultural

O desastre econômico e social provocado pelo Grande Salto para Frente (o projeto de desenvolvimento experimentado pela China entre os anos de 1958 e 1960) gerou conflitos internos de grandes proporções no PCCh, abrindo caminho para a perda de poder de Mao Tsé-Tung.
A direção política do Estado chinês ficou nas mãos de um triunvirato integrado pelo vice-presidente, Liu Shao-chi; pelo primeiro-ministro, Chu Enlai, e pelo dirigente partidário, Deng Xiaoping. As críticas que emergiram do seio do PCCh contrárias ao governo de Mao Tsé-Tung eram válidas em razão do retrocesso econômico e social provocado pelo projeto desenvolvimentista idealizado pelo dirigente chinês.
Durante os três anos de vigência do Grande Salto, estima-se que cerca de 16,5 milhões de chineses (em sua maioria, camponeses) tenham morrido de fome e doenças causadas por desnutrição. Para recuperar a economia, os novos dirigentes do Estado chinês reavivaram alguns princípios característicos do sistema capitalista como, por exemplo, recompensas por esforços no trabalho. Eles também desmontaram as comunas rurais e readotaram o gerenciamento técnico na condução da produção econômica.

Construção do socialismo e o Exército de Libertação Popular

Mao Tsé-Tung não perdeu o poder por completo. Ele manteve-se como líder supremo do Exército de Libertação Popular (ELP) e, com o apoio dos militares e de facções políticas atuantes dentro do PCCh, Mao retomou as rédeas do Estado chinês, reconduzindo a seu modo a construção do socialismo.
A lealdade do ELP ao PCCh e de ambos ao próprio Mao Tsé-Tung se fortaleceu à medida que as relações internacionais da China com seus vizinhos fronteiriços ameaçaram a integridade do território chinês. No início dos anos 60, as relações da China com a Índia e a ex-aliada URSS se deterioraram ainda mais. Nessa mesma conjuntura, Mao e seus aliados lançaram um programa de educação política objetivando converter todos os soldados do poderoso ELP em comunistas fiéis e obedientes ao PCCh.
Mao deflagrou, em 1965, a contra-ofensiva sobre as facções políticas rivais dentro do PCCh que controlavam o Estado chinês. Ele criticou ferozmente aqueles que preconizavam a readoção de alguns princípios capitalistas na economia, além de apontar a burocratização e o elitismo que já se manifestavam dentro e fora do PCCh.
Mao também defendeu a transferência do controle da Revolução para as mãos das massas (camponeses e operários), sob coordenação do Partido, como forma de avançar na construção de um sistema socialista próximo da igualdade absoluta. Para atingir esses objetivos, Mao Tsé-Tung decidiu aplicar ao conjunto da sociedade chinesa um vasto programa de educação política, seguindo o modelo aplicado ao ELP.

China Comunista (Parte 03/07)

Nikita Kruchev

Conflito entre China e URSS e o Grande Salto

A construção do socialismo chinês recebeu inicialmente um valioso apoio da URSS. A ajuda soviética veio em forma de assessoramento técnico, científico e, principalmente, financeiro. Entre 1950 e 1956, a assistência soviética contribuiu decisivamente para a recuperação e posterior desenvolvimento da economia chinesa.
Contudo, nos idos de 1956, a relação política entre chineses e soviéticos ingressou numa fase de conflito, que alterou profundamente os rumos da construção do socialismo na China. Em 1953 morre o dirigente soviético Josef Stálin e Nikita Kruchev assume o poder, em 1956. O novo governante soviético fez severas críticas ao antecessor e promoveu o que se convencionou chamar de "desestalinização".
Junto com a desestalinização, Kruchev idealizou e colocou em prática a "doutrina de coexistência pacífica", que preconizava o caminho pacífico para se alcançar a revolução comunista pelo mundo. Ou seja, a política externa soviética passou a defender estratégias de construção do socialismo sem recorrer à violência revolucionária. Essa postura contribuiu decisivamente para a deflagração de um avassalador "revisionismo" político e ideológico, que atingiu praticamente todos os movimentos e partidos comunistas.

Repressão de dissidentes

No início, Mao Tsé-Tung permitiu que o revisionismo aflorasse na China com a Campanha das Cem Flores, que pode ser entendida como a aceitação por parte do Estado da crítica contra o sistema socialista, tanto por parte de ativistas, intelectuais, quadros do PCCh e também do povo em geral. Depois de um brevíssimo período, movimentos de contestação e ondas de protesto irromperam por todo o país, levando Mao a interromper a política de tolerância e liberalização e reprimir violentamente os dissidentes e críticos.
Além de conflitar com os soviéticos na questão do revisionismo, os chineses criticaram a doutrina de coexistência pacífica, por ela ter levado a URSS a se aproximar das potências capitalistas ocidentais, em particular dos Estados Unidos, estreitando as relações diplomáticas e abandonando a política de enfrentamento.
Em 1959, duas atitudes da URSS irritaram ainda mais os dirigentes chineses. A primeira envolveu a recusa do Estado soviético em fornecer ajuda à China para desenvolver armamentos nucleares. A segunda derivou do apoio da URSS à Índia numa questão envolvendo um litígio fronteiriço com a China. Esses fatores geraram muita desconfiança dentro da China e fez com que os dirigentes chineses se afastassem da URSS.
Em 1960, a tensão entre a China e a URSS alcançou o clímax. Os soviéticos interromperam o auxílio técnico, financeiro e militar. Os chineses tiveram de contar com seus próprios recursos a fim de seguir na construção do socialismo. Foi neste contexto que a China abandonou o planejamento econômico com base nos Planos Qüinqüenais (1949-1954) e colocou em prática uma nova política de desenvolvimento econômico e social, que foi oficialmente chamada de o Grande Salto para Frente (1958-1960).

Grande Salto

O Grande Salto tinha como premissa a mobilização de todos os recursos humanos da China, em particular da massa camponesa, que constituía cerca de 80% da população, a fim de acelerar o desenvolvimento econômico e a igualdade entre todos num curto período de tempo. Ironicamente, porém, o Grande Salto foi um desastre completo, que levou à desorganização da economia chinesa e ao aumento da fome no campo, acarretando a morte de milhões de camponeses.
O núcleo do projeto desenvolvimentista era a auto-suficiência e a auto-sobrevivência, ou seja, cada vilarejo deveria produzir os alimentos e os bens necessários. A obsessão para atingir metas de produção, porém, levou os dirigentes chineses a dispensarem o conhecimento técnico e o planejamento antecipado, precipitando o surgimento de problemas insolúveis para o país.
As minas de carvão que se proliferaram por todo o país arruinaram os campos férteis; o cultivo irregular de determinados grãos e alimentos ocasionaram o cansaço do solo; a construção de represas sem o devido planejamento e estudo técnico arruinou os solos, tornando-os imprestáveis para o cultivo; as máquinas agrícolas careciam de peças de reposição, entre inúmeros outros problemas.
O fracasso do Grande Salto abriu caminho para uma autocrítica por parte de Mao Tsé-Tung e o surgimento de uma dissidência dentro do PCCh. Com apoio de partidários influentes, Liu Shao-chi e Deng Xiaoping assumem a condução dos assuntos internos. Mao Tsé-Tung tem seus poderes diminuídos, mas ainda assim mantém controle sobre o Exército Popular de Libertação. A tentativa de Mao Tsé-Tung de retomar seus poderes resultou na Revolução Cultural (1966-1975).

China Comunista (Parte 02/07)


Inimigo comum: os japoneses

Mesmo assim, a vanguarda revolucionária comunista decidiu unir forças com o exército nacionalista na luta contra o inimigo comum da China: os japoneses. Tem início, então, a terceira fase do movimento revolucionário, denominada de coalizão das forças comunistas e nacionalistas, que durou de 1938 a 1945.
Depois de oito anos de intensos combates, os japoneses são finalmente derrotados na China e também pelos aliados na Segunda Guerra Mundial. Os comunistas saem fortalecidos na guerra de libertação nacional e retomam a guerra civil contra os nacionalistas, dando início à quarta e última fase do movimento revolucionário.
Finalmente, em 1949, o Exército Popular de Libertação derrota os nacionalistas, que se refugiam na ilha de Taiwan e formam um governo ditatorial, separando-se da China continental como um Estado independente. Vitoriosos, os comunistas fundam a República Popular da China.
Ao assumirem o poder, os comunistas tinham pela frente enormes tarefas diante de um imenso país, muito populoso e com muitas riquezas naturais, mas atrasado em vários aspectos: tecnológico, científico, educacional, social e econômico. A China pós-revolucionária era uma nação desorganizada, falida e em ruínas.

Construção de uma nova China

Os problemas mais urgentes eram a inflação galopante e a paralisação da produção industrial e rural. Depois de muitas décadas de penúria e humilhação, o povo chinês ansiava por mudanças que melhorassem sua condição de vida. Gradualmente, a indústria e o comércio foram nacionalizados. As finanças foram equilibradas e a reforma agrária foi realizada.
Os hábitos e costumes tradicionais do povo foram abruptamente alterados. O Estado declarou a educação popular uma obrigatoriedade. A prostituição e o uso de drogas, antes endêmicos, passaram a ser considerados crimes. As mulheres, por outro lado, se libertaram do concubinato (que as mantinham numa relação de subordinação ao marido).
Os revolucionários desfecharam uma feroz perseguição a todas as classes de indivíduos que tinham ligações com os nacionalistas. Funcionários estatais, administradores de empresas, pequenos e médios proprietários urbanos e rurais, membros de associações religiosas e tradicionais, entre outros segmentos sociais, foram declarados "inimigos do povo".
A população foi oficialmente estimulada a participar, engajando-se na denúncia, julgamento e condenação dos acusados. Todo esse processo foi marcado pelo uso de violenta repressão contra os opositores do socialismo. Como exemplo dessa política oficial, estima-se que cerca de dois milhões de indivíduos pertencentes à classe de proprietários rurais perderam a vida porque resistiram à socialização e à coletivização das terras.

China Comunista (Parte 01/07)


Camponeses se juntam ao movimento revolucionário

A revolução comunista na China foi um processo que começou em 1927 e terminou em 1949. No transcurso desses 22 anos, a revolução atravessou quatro fases distintas.
A primeira fase se caracterizou pela eclosão de uma guerra civil envolvendo os nacionalistas e os comunistas, que combateram em algumas cidades do sul do país. O exército nacionalista foi liderado pelo general Chiang Kai-shek e nos primeiros três anos de guerra conseguiu derrotar e expulsar das grandes cidades os comunistas e seus seguidores.
A severa derrota dos comunistas nas zonas urbanas, principalmente nas cidades de Shangai, Gengzhou e Changsha, desencadeou uma autocrítica dentro do Partido Comunista Chinês (PCCh), levando Mao Tsé-Tung à liderança partidária. Mao Tsé-Tung estabeleceu uma nova estratégia revolucionária, voltando-se para as zonas rurais em busca do apoio das massas camponesas.

A Longa Marcha

Dos anos que vão de 1930 a 1937 a revolução atravessa a segunda fase. O conflito se generalizou por todo o território chinês, levando milhões de homens a pegarem em armas. No início, porém, a estratégia maoísta de criação dos chamados sovietes rurais (cujo desdobramento esperado era a organização das guerrilhas camponesas, que iriam deflagrar a guerra revolucionária) se deparou com alguns obstáculos, entre eles a dificuldade de vencer o poderoso exército nacionalista que perseguiu os comunistas pelo interior do país.
Habilmente, Mao Tsé-Tung conduziu os comunistas por quase 10 mil quilômetros pelo interior do país, no que ficou conhecida como a célebre Longa Marcha (1934-1935), até chegarem à província de Shensi, onde se instalaram e ali permaneceram sob a coordenação e proteção do soviete de Yenan.
Em 1937, o Japão invade militarmente a China e o exército nacionalista passa a combater os japoneses. Concentrados na província de Shensi, os comunistas fortalecem suas posições com a organização do Exército Popular de Libertação, formado majoritariamente por milhões de camponeses explorados e empobrecidos, que aderiram em massa ao movimento revolucionário.

Texto produzido por Renato Cancian. Portal UOL Educação.

China Republicana (Parte 04/04)


Ocupação japonesa

Em julho de 1937, o Japão atacou e ocupou parte do território da China. Os comunistas, liderados por Mao Tsé-Tung, e os nacionalistas, liderados Chiang Kai-shek, firmaram uma aliança estratégica para combater o inimigo comum. A acupação japonesa favoreceu os comunistas de dois modos: eliminou a elite rural e forjou a solidariedade entre as massas rurais oprimidas.
Primeiramente, a ocupação das províncias chinesas pelo exército invasor fez com que os funcionários do Kuomintang e os senhores rurais abandonassem o campo em direção às cidades, deixando, portanto, os camponeses entregues à própria sorte. Essa situação permitiu que os comunistas estreitassem os laços com as massas rurais. Por outro lado, as campanhas japonesas de perseguição e extermínio no campo estimularam a maior coesão das massas camponesas.
A infuência crescente dos comunistas deu origem a tendências colaboracionistas por parte dos líderes do Kuomintang que, temerosos com as possibilidades de uma revolução social, apoiaram-se nas forças invasoras e lutaram contra os comunistas. Os comunistas, porém, conseguiram maior adesão das massas camponesas com promessas de reforma agrária e com a adoção de uma nova organização política nas aldeias conquistadas. A ocupação das forças japonesas na China chegou ao fim depois da derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial.

Guerra civil e revolução de 1949

Após a vitória sobre o invasor, tanto os comunistas como o Kuomintang tentaram ampliar a influência e controle sobre o território chinês. Ambas as forças políticas antagônicas retomaram, então, a guerra civil que tinha sido suspensa. A guerra civil foi travada entre os anos de 1946 e 1949. O Kuomintang era militarmente mais forte nas cidades, enquanto os comunistas tinham maior força nos campos. A estratégia do líder comunista Mao Tsé-Tung foi a de cercar as cidades a partir dos campos.
A vitória dos comunistas foi gradual e começou com o controle total da região norte da China, em 1948, onde está localizada a província da Manchúria, que na época era a mais importante do país, devido aos seus imensos recursos econômicos. Progressivamente, os comunistas avançaram para o restante do território chinês.
Nos dois últimos anos da guerra civil, o Kuomintang passou a enfrentar conflitos internos devido às divergências em torno da liderança das forças militares nacionalistas e também diante do enfrentamento da grave crise econômica. Esses dois fatores contribuiram decisivamente para que parcelas consideráveis das forças militares nacionalistas passassem para o lado dos comunistas.
Em 1949, os comunistas chineses finalmente conseguiram expulsar os nacionalistas para a ilha de Taiwan e proclamaram a República Popular da China. Os líderes do Kuomintang que abandonaram o território da China continental trataram de instaurar um governo ditatorial na ilha de Taiwan, contando com apoio militar dos Estados Unidos, apoio este que perdura até hoje. Até 1980, os nacionalistas mantiveram o país sob uma ditadura de partido único. A relação entre Taiwan e China é tensa, pois os comunistas consideram Taiwan uma província renegada, parte da China.

China Republicana (Parte 03/04)

soldados do exército de libertação popular da China

Camponeses abrem caminho para a Revolução

Nas últimas décadas que antecederam o fim do sistema imperial na China, as revoltas camponesas ampliaram-se enormemente diante da ruptura da coesão social no âmbito da aldeia. A fome, a exploração brutal e a repressão aos camponeses, que se juntavam aos movimentos de revolta e sublevação, deram origem a uma situação insustentável, que transformou a zona rural das províncias do interior da China num ambiente marcadamente violento.
Os comunistas chineses desempenharam um importante papel ao canalizarem o crescente descontentamento das massas camponesas para as tarefas revolucionárias de destruir a estrutura social existente. Desde a fundação do Partido Comunista Chinês, em 1921, os comunistas tentaram sem sucesso seguir a ortodoxia marxista, que preconizava o levante revolucionário com o apoio do proletário urbano.

Exército de Libertação Popular

O líder maximo do movimento comunista revolucionário chinês, Mao Tsé-Tung, porém, abandonou essa estratégia e conduziu a formação de um Exército de Libertação Popular, integrado, majoritariamente, por camponeses. As ofensivas militares contra os comunistas, por parte do governo de Chiang Kai-shek, continuaram, mas, em 1937, o governo central precisou enfrentar um novo inimigo: os invasores japoneses. A luta contra a ocupação japonesa fortaleceu os comunistas.

China Republicana (Parte 02/04)

Representantes e membros do kuomitang de Shangai

Domínio do Kuomintang

O Kuomintang foi o movimento republicano conduzido pelo Partido Nacionalista da China. O partido foi liderado pelo militar Chiang Kai-shek, que tentou a todo custo unificar a China, com a formação de um governo nacional. Para concretizar essa tarefa, os republicanos que integravam o Kuomintang combateram incansavelmente os comunistas e os "senhores da guerra" (que foi a denominação dada aos proprietários rurais que haviam formado exércitos regionais para manter o controle político e econômico nos seus respectivos domínios territoriais).
Contando com um exército poderoso, Chiang Kai-shek conseguiu estabelecer, em 1927, controle sobre a maior parte do território da China e estabelecer um poder central que ficou sob a liderança do Kuomintang. Não obstante, na China daquele período, qualquer programa político de unificação nacional que pretendesse ser estável e duradouro dependia de um amplo consenso entre as classes sociais, que estavam em conflito latente diante de seus interesses profundamente divergentes.
Com o apoio das velhas classes de proprietários rurais e de parcelas importantes das novas classes industriais e comerciais emergentes, Chiang Kai-shek liderou uma série de golpes militares e constituiu um governo ditatorial. A aliança das classes dominantes chinesas, no âmbito do Kuomintang, deu origem a um programa político de modernização social extremamente conservador e reacionário.
O governo central passou a reprimir com extrema violência os trabalhadores urbanos e, principalmente, os comunistas que lideravam as revoltas e a sublevação de camponeses. Em 1934, as forças militares do governo central desfecharam um forte golpe no movimento comunista, forçando-o a abandonar as suas posições no sul do país.

China Republicana (Parte 01/04)

Chiang Kai-shek, líder do Partido Nacionalista da China

Chiang Kai-shek e o domínio do Kuomintang

No final do século 19 o sistema imperial chinês começou a ruir diante das tensões políticas provocadas por rebeliões sociais internas, ameaças de invasão estrangeira e divisão da classe dominante.
O enfrentamento dos problemas que ameaçavam o sistema imperial necessitava de vultosos recursos econômicos. A dinastia Manchu ficou diante de dois dilemas. Primeiro, precisava criar um sistema eficiente de impostos. Para isso teria que acabar com os privilégios da pequena nobreza que representava a classe de proprietários fundiários vinculados à burocracia, que drenava boa parte dos recursos extraídos dos súditos em forma de impostos.
Segundo, precisava encorajar o comércio e a indústria, estimulando a geração de novos recursos financeiros em forma de tributos e o surgimento de uma nova classe social (a burguesia industrial) para contrabalançar o poder da pequena nobreza "parasitária".
Esses dois problemas se mostraram dificílimos de ser resolvidos pelos governantes imperiais, pois a pequena nobreza representava a classe social que sustentava todo o sistema imperial. Além disso, a alfândega e o comércio das cidades portuárias mais prósperas estavam sob controle estrangeiro. Ainda assim, houve várias tentativas de aplicar reformas políticas e econômicas. A primeira delas ficou conhecida como a Restauração Tung-chih (1862-1874). Mas essa tentativa e várias outras fracassaram.

Caos social e conflitos internos

A partir de 1860, a China mergulhou num período de caos social, conflitos políticos internos e ameaças de invasão militar estrangeira. Todas as tentativas de salvar o sistema imperial não tiveram êxito. O poder dos imperadores foi enfraquecendo. A pequena nobreza fundiária reagiu à crise do império dissociando-se pouco a pouco dos imperadores. Como alternativa, construiu suas próprias bases de poder político e econômico de âmbito regional, estimulando ainda mais a tendência centrífuga de fragmentação do poder central.
A cobrança e transferência dos impostos e tributos sobre a terra e sobre a circulação de mercadorias, bem como a influência sobre os camponeses escaparam quase que por completo do controle do poder central. A exploração das massas camponesas pelos senhores rurais aumentou consideravelmente.
Os camponeses perderam os direitos tradicionais, que lhes garantiam proteção com base no código de exploração legítima, mas "limitada" (ou seja, dentro dos padrões de dignidade prevalecentes nos códigos morais da época). O crescente descontentamento dos camponeses desencadeou inúmeras revoltas no campo, todas eficazmente exploradas pelos revolucionários comunistas, que ganharam influência contribuindo diretamente para elevar a tensão social e provocar mais divisão das forças políticas nacionais.
Os senhores rurais e os pequenos comerciantes reagiram à crise do sistema imperial coligando-se entre si a partir de seus interesses regionais. Para garantir o poder em determinada região, as elites rurais formaram exércitos locais. No contexto de militarização crescente das elites rurais regionais, o poder central desapareceu e junto com ele a capacidade de manter a ordem social.
A proclamação da República, em 1911, representou tão somente a formalização de uma situação político-institucional que já existia de fato: ou seja, o declínio do poder imperial. Porém, nas duas décadas seguintes, as classes dominantes chinesas foram incapazes de se aliar para formar um governo de unidade nacional. Nesse contexto, a sociedade chinesa ficou profundamente dividida e entrou numa fase de desagregação ainda mais intensa, que perdurou até a Revolução Comunista de 1949.

Texto produzido por Renato Cancian. Portal UOL Educação.

China Imperial (Parte 04/04)

Ilustração de duelo entre Garça e Serpente

Novas forças sociais

O sistema imperial tentou em vão controlar as novas forças sociais e econômicas que se desenvolviam rapidamente e ameaçavam a manutenção da unidade política e territorial da China. Mesmo assim, foi somente em 1910 que se verificou um nítido impulso no sentido das classes comerciais burguesas se libertarem da influência da burocracia imperial.
De qualquer modo, as áreas territoriais mais avançadas urbana e industrialmente permaneceram sob controle estrangeiro até a segunda metade do século 20. E até a data mencionada, a sociedade chinesa permaneceu predominantemente agrária, com uma classe média numericamente insignificante e politicamente dependente.

Colapso do sistema imperial

O sistema imperial chinês foi minado por forças internas que tinham interesses conflitantes. Essa situação levou o país a um período de anarquia, que resultou na mudança do regime político: a proclamação da República.
Quais as contradições sociais responsáveis pelo colapso do sistema imperial? Pode-se afirmar que, até o final do século 19, as classes dominantes chinesas (ou seja, os proprietários fundiários) continuaram a ser a base de sustentação de todo o sistema imperial. Fatores externos, sobretudo ligados às pressões militares de nações européias, levaram, no entanto, a classe dominante chinesa a se dissociar.
O principal fator de desintegração do sistema imperial emergiu diante das necessidades crescentes dos últimos governantes da dinastia Manchu de concentrar recursos materiais e financeiros para fazer frente às rebeliões internas e aos inimigos externos. As necessidades materiais e financeiras só puderam ser atendidas a partir da destruição do amplo sistema de privilégios que unia a burocracia administrativa e a classe fundiária.

China Imperial (Parte 03/04)

Ilustração de Yim Wing Chun

Na ausência de obrigações feudais surge, na China imperial, controlada pela dinastia Manchu, a questão de se saber como a classe de proprietários fundiários conseguia obrigar os camponeses a trabalharem na terra. De acordo com estudiosos do período, o trabalho dos camponeses era baseado em contratos de arrendamento de tipo capitalista. Evidentemente, havia variações regionais, mas pode-se dizer que na maioria das zonas agrícolas o proprietário fundiário fornecia a terra e os camponeses, a mão-de-obra.
Sabe-se que, por volta de 1810, cerca de 80% das terras cultivadas na China estavam em poder da classe dos grandes senhores fundiários e o restante, 20%, pertencia aos camponeses. A colheita era dividida entre ambos e ao que tudo indica a troca em espécie prevalecia até mesmo nos pagamentos de impostos devidos ao imperador.

Superpopulação de camponeses

A existência de uma superpopulação de camponeses interessava diretamente aos senhores proprietários fundiários, pois facilitava o arrendamento das terras através de um maior grau de extração de excedente econômico. Ou seja, num contexto social de superpopulação, a competição entre os camponeses diante da necessidade de prover o próprio sustento levava-os a trabalhar nas terras por níveis cada vez mais baixos de remuneração (neste caso, a porção de alimento produzido).
As pressões da grande massa de camponeses sobre as terras cultiváveis aumentaram consideravelmente no final do século 18 e se agravaram nas décadas seguintes, transformando-se num fator importante a contribuir para minar a estrutura social.

Urbanização e industrialização

A urbanização e a industrialização ocorreram tardiamente na China. O sistema imperial, em particular a burocracia administrativa, impediu o quanto pôde a modernização do país, evitando a adoção da agricultura comercial, o surgimento de uma burguesia comercial e núcleos urbanos autônomos capazes de contrapor-se aos grandes proprietários fundiários (como ocorreu na Europa Ocidental na última fase do feudalismo).
Avanços na urbanização e industrialização começaram a ganhar fôlego no final do século 18 diante de dois processos concomitantes: a decadência da máquina administrativa imperial e as pressões externas provenientes das nações européias ocidentais, que tinham interesses militares e comerciais na China.
O domínio tradicional da classe culta de funcionários-intelectuais declinou nas zonas costeiras, permitindo assim o surgimento de núcleos urbanos e o aparecimento de uma burguesia comercial nativa que se opôs às pretensões de centralização do poder político sob o sistema imperial.

China Imperial (Parte 02/04)

Dinastia Manchu em 1644

Estrutura fundiária

Um dos principais fatores, talvez o mais importante, para se compreender a estrutura fundiária da sociedade chinesa é entender o mecanismo social de acumulação material, que estava fortemente baseado na relação entre o serviço burocrático imperial e o investimento na compra de terras.
A classe proprietária de terras era constituída por clãs familiares. Para assegurar a propriedade da terra e aumentar a fortuna material da família era importante que algum membro do clã obtivesse um cargo oficial junto à estrutura burocrática imperial. As fortunas obtidas por meio do serviço imperial eram investidas em terras.
Em teoria, os cargos oficiais estavam abertos a todos, incluindo até mesmo os camponeses mais pobres, mas a ausência de um sistema de educação popular diminuía consideravelmente as chances daqueles que não pudessem contar com o apoio de uma família rica para custear os estudos, que exigiam muitos anos de dedicação.

Controle da mão-de-obra camponesa

Entre os funcionários burocráticos havia uma nítida distinção entre aqueles que possuíam ou não formação cultural e grau acadêmico. Os "intelectuais" formavam a classe de funcionários burocráticos que possuíam formação acadêmica (mandarins). Sendo a propriedade da terra o fator decisivo na dominação da mão-de-obra camponesa, os cargos oficiais mais importantes (que interessavam à classe de proprietários) eram justamente aqueles que diziam respeito ao controle das terras.
Além disso, o proprietário de terras dependia da burocracia imperial para a realização de benfeitorias, como grandes obras de irrigação e a construção de sistemas de controle de águas adequados, que ajudassem a obter boas colheitas.
O sistema político cumpria, portanto, a dupla função de assegurar a propriedade e de fazê-la render. Mas além de realizar essas duas funções, a burocracia imperial cumpria o papel de manter a ordem, evitando que o crescimento da população de camponeses ameaçasse os direitos de propriedade.

China Imperial (Parte 01/04)

Xuantong, último imperador da dinastia Manchu

Dinastia Manchu controlava sociedade agrícola

Nas últimas duas décadas do século 20 a República Popular da China atraiu a atenção do mundo em razão do seu acelerado crescimento econômico e intenso processo de modernização social. A China emerge como potência mundial e, segundo todas as estimativas, o país está destinado a ocupar uma posição de destaque no cenário internacional no transcurso do século 21.
O progresso e o desenvolvimento econômico e social da China estão fortemente assentados sobre o regime comunista que se estabeleceu com a Revolução de 1949. Para compreendermos a vitória revolucionária dos comunistas, bem como a China contemporânea, é imprescindível considerarmos primeiramente os períodos históricos precedentes, em que o país esteve sob domínio imperial e posteriormente sob o regime republicano.

Dinastia Manchu

Durante o período em que vigorou o sistema imperial a China era uma sociedade predominantemente agrária, permanecendo assim até as vésperas da Revolução de 1949. Ao contrário da Europa medieval, porém, a China imperial não conheceu o feudalismo, e pode-se dizer que o sistema de vassalagem e as concessões de terra em troca de serviços militares (que representavam a base do sistema feudal ocidental) sempre foram muito limitados naquele país.
A dinastia Manchu (1644-1911) representou a última fase do sistema imperial. O poder político estava fortemente centralizado nas mãos dos imperadores que se sucederam no trono: Nurhachi (1616-1625); Huang-Taiji (1625-1643); Shunzhi (1643-1661); Kangxi (1661-1722); Yongzheng (1722-1735); Qianlong (1735-1796); Jiaqing (1796-1820); Daoguang (1820-1850); Xianfeng (1850-1861); Tongzhi (1861-1875); Tzu Hsi (1875-1908), e Xuantong (1908-1912).
Os imperadores controlavam o vasto país por meio de um extenso aparelho administrativo, constituído por uma classe de funcionários recrutados segundo critérios burocráticos (chamado de sistema de exames). A estrutura econômica se baseava na produção agrícola e a sociedade chinesa era composta por uma diminuta classe de proprietários de terras e uma grande maioria de camponeses.

Texto produzido por Renato Cancian. Portal UOL Educação.

Dinastias Sui e Tang: reunificação e esplendor do império (Parte 07/07)

Mapa dos domínios da Dinastia Tang

A decadência da dinastia Tang

Outros problemas assolaram o país: uma grande seca e uma praga de gafanhotos trouxeram a fome e provocaram uma série de revoltas camponesas. Uma delas ocorreu no século 9, quando vários camponeses famintos saquearam as duas capitais, Chang'an e Luoyang. Apesar de derrotada, essa rebelião enfraqueceu o exército chinês e contribuiu para o declínio da dinastia Tang.
A partir do ano 902, teve início uma longa guerra civil que levou ao esfacelamento do país em vários reinos menores. Em 906, o general Zhu Wen depôs o último imperador Tang e deu início ao período das cinco dinastias, 907-960, também conhecido como período dos dez reinos.
A China voltou a ser reunificada somente a partir do ano 960. O responsável por isto foi o general Zhao Kuangyin que deu início a uma nova dinastia - a dos Song (960-1279). Os Song conseguiram reunificar a maior parte da China, exceto a parte norte que estava sendo governada por um povo mongol. Durante esta dinastia, a China se tornará pioneira no uso do papel-moeda e no da pólvora. Mas essa já é uma outra história.

Dinastias Sui e Tang: reunificação e esplendor do império (Parte 06/07)


Fase de prosperidade

Durante a dinastia Tang, a China conheceu uma fase de grande prosperidade e progresso técnico e material. Entre as inovações que marcaram o período está o aparecimento do primeiro relógio mecânico, no ano 732, inventado por um monge budista chinês.
Outras invenções que marcaram o período foram a bússola e a técnica de imprimir livros. Enquanto na Europa, nos mosteiros católicos, os chamados monges copistas tinham que transcrever manualmente livros antigos para se obter novas cópias, na China já era possível imprimir vários exemplares de um mesmo livro.
Essa mesma técnica de impressão permitiu que as provas para os concursos públicos chineses da época fossem impressas. Durante a dinastia Tang, a China teve suas fronteiras ampliadas e o comércio se expandiu. O período também foi marcado pela fundação de várias escolas de medicina, não apenas na capital, Chang'an, mas também nas províncias.
Uma das conseqüências do desenvolvimento econômico foi o extraordinário aumento da população, favorecido pela melhoria nas condições de vida da maioria dos habitantes. Segundo o primeiro censo, realizado em 754, a população da China já havia ultrapassado a faixa dos 50 milhões, um número excepcional para a época.
No entanto, essa prosperidade não durou para sempre. O final da dinastia Tang foi conturbado, marcado por uma série de crises. Durante o reinado de Taizong, os camponeses pagavam impostos em espécie (entregando parte do arroz que plantavam) ou na forma de trabalho; mas, a partir de 780, o governo passou a exigir que os impostos fossem pagos em dinheiro. Tal exigência era impossível de ser cumprida pela maioria dos camponeses e, por isso, muitos deles perderam suas terras.

Perseguição aos budistas

Outro problema que surgiu foi a escassez de cobre e outros metais para cunhar moedas. Naquela época, o dinheiro era todo na forma de metal. Falta de metal era igual a falta de dinheiro. O governo colocou a culpa nos templos budistas que usavam bronze e outros metais para construir seus sinos e estátuas.
Em meados do século 9, ele começou a confiscar todos os objetos de metal dos templos budistas para derretê-los e cunhar novas moedas. Outra medida foi baixar um decreto que acusava o budismo de ser uma religião estrangeira (surgiu onde hoje é o Nepal), que estava enfraquecendo o país.
O governo se apropriou das terras onde estavam vários mosteiros budistas. Alguns foram destruídos enquanto outros foram transformados em edifícios públicos. Devido à extensão da China, essas medidas antibudistas só conseguiram ser cumpridas em algumas regiões. Nas outras, eles continuaram praticando sua religião nos templos e mosteiros.

Dinastias Sui e Tang: reunificação e esplendor do império (Parte 05/07)

Wu Hou foi a única mulher a ser reconhecida
oficialmente como imperatriz da China

Reforma agrária e concursos públicos

Durante o reinado de Taizong, o governo tomou medidas que contribuíram bastante para o desenvolvimento da China. Uma delas foi a reforma agrária: o imperador desapropriou as terras que pertenciam aos seus inimigos (era uma forma de evitar que os nobres se rebelassem contra o imperador) e as dividiu entre os camponeses que nela trabalhavam (conquistando, assim, apoio popular).
Para administrar o país, o imperador precisava de funcionários públicos qualificados. Então ele instituiu concursos públicos, nos quais os candidatos que apresentassem melhor desempenho nas provas eram selecionados. O critério de seleção baseava-se apenas no desempenho do candidato na prova, independente de sua origem social. Por isso, se diz que a China do período era uma meritocracia, ou seja, um regime em que as pessoas conquistam cargos com base no mérito e não por "apadrinhamento".

A imperatriz Wu Hou

A política de Taizong foi continuada por seus sucessores, dentre os quais, Wu Hou, a única mulher a ser reconhecida oficialmente como imperatriz da China, que havia sido uma das concubinas de Li Shimin.
Quando um imperador chinês morria, as mulheres, que faziam parte do harém, eram obrigadas a viver reclusas. Muitas delas eram enviadas para algum convento budista, geralmente próximo ao túmulo do imperador, onde tinham as suas cabeças raspadas e passavam o tempo rezando pela alma do morto para que ele fosse feliz em sua próxima reencarnação.
Wu Hou escapou desse destino porque seus atributos teriam impressionado o filho de Taizong, o imperador Gaozong. Ela governou ao lado de Gaozong de 670 a 683 e, sozinha, de 690 a 705, quando morreu. O seu sucessor foi o seu filho, Zhongzong.

Dinastias Sui e Tang: reunificação e esplendor do império (Parte 04/07)

Pintura do imperador Tang Taizong

O início da Dinastia Tang

Pouco antes do assassinato de Yangdi, numa das capitais do império, Daxing, que se localizava no oeste, um general rebelde chamado Li Yuan, proclamou imperador um dos netos do monarca. Esse general também "homenageou" Yangdi concedendo-lhe o título de "imperador aposentado". Tais medidas só foram reconhecidas nos territórios controlados por ele.
Antes de se rebelar, Li Yuan governava uma província e era leal ao imperador. Um de seus filhos, o segundo, Li Shimin (também se escreve Li Shih-Min), foi quem encorajou o pai a rebelar-se. Quando as notícias sobre a morte de Yangdi chegaram Li Yuan depôs o neto do imperador e colocou a si mesmo no trono, dando início à dinastia Tang (618-907).
Dentre todos os filhos do primeiro imperador Tang, Li Shimin era o mais ambicioso e o que mais demonstrava talento para a política. O irmão mais velho, Li Jiancheng, sentindo-se preterido (que por ser o primogênito, considerava-se o herdeiro do trono por direito), uniu-se a outro irmão, Li Yuanji, o quarto filho de Li Yuan, para conspirar contra o irmão. A conspiração fracassou e ambos acabaram mortos numa emboscada preparada pelo irmão que pretendiam eliminar. Li Shimin tomou como esposa a viúva do irmão mais novo.
No ano 626, o primeiro imperador Tang abdicou do trono em favor de Li Shimin que, ao assumi-lo, adotou um novo nome: Taizong (também se escreve Tai-Zung), que significa "segundo imperador de uma dinastia". Portanto, Tang Taizong significa nada menos que "segundo imperador da dinastia Tang".

Tang Taizong, imperador mestiço

O segundo imperador Tang era de origem chinesa, por parte do pai, e turca, por parte da mãe. Esse fator contribuiu para que a dinastia Tang fosse caracterizada pela mescla de elementos das duas culturas e fosse mais aberta para inovações, rompendo com algumas das antigas tradições chinesas.
Taizong incorporou várias tropas turcas ao exército chinês, nomeando oficiais turcos e utilizou esse exército contra os próprios reinos turcos.O império dos Tang era multicultural: além de turcos e chineses, também abrigava comunidades de origens indiana, persa e árabe, entre outras.

Dinastias Sui e Tang: reunificação e esplendor do império (Parte 03/07)


Invasões à Coréia
O imperador também pretendia que o Grande Canal fosse um instrumento para sua política expansionista e a vizinha Coréia foi um dos primeiros alvos. Na época, ela estava dividida em três reinos independentes e o imperador chinês tentou quatro vezes conquistar um deles, chamado Goguryeo.
Na primeira vez, ele reuniu os membros da nobreza guerreira e os enviou à Coréia numa tentativa malsucedida de invadir e dominar o reino de Goguryeo. As forças chinesas sofreram derrotas em terra e no mar. Os coreanos ofereceram forte resistência enquanto defendiam as muradas de suas cidades. E fora das muradas, os soldados chineses também eram derrotados por dois inimigos: a fome e o frio.
Uma das razões para a vitória coreana foi a sua superioridade na engenharia naval: os seus navios eram encouraçados de metal, uma novidade na época, e conseguiram repelir a marinha chinesa. As outras três tentativas de conquistar o reino coreano também fracassaram.
O exército chinês foi arrasado na série de guerras travadas contra o reino coreano. Estima-se que as baixas chinesas superaram a marca de dois milhões. Das 305 mil tropas enviadas para lutar na Coréia, apenas duas mil e setecentas retornaram. O alto custo dessas derrotas militares, tanto em dinheiro quanto em vidas humanas, contribuiu para o fim da dinastia Sui.
O imperador se tornou cada vez mais impopular e, no ano de 618, acabou sendo assassinado por seus próprios ministros. Outros fatores que contribuíram para a sua queda foram as invasões de nômades turcos no território chinês e os excessivos gastos com luxos no palácio - à custa dos impostos pagos pelos mais pobres.