"A Vida, como a fizeres, estará contigo em qualquer parte." (Autoria desconhecida)

Primeiras cédulas de papel surgiram na China


As cédulas de papel apareceram a partir do século VII na China. Eram feitas de casca de amoreira. Na Europa, a primeira nota foi emitida pelo Banco de Estocolmo, Suécia, em 1661. No Brasil, as primeiras cédulas a circular foram os Bilhetes da Real Administração dos Diamantes, em 1771.

Hipócrates é considerado o Pai da Medicina

Juramento de Hipócrates

Hipócrates, sábio da Grécia, que viveu no quarto século antes de Cristo, é considerado o Pai da Medicina. O nome é associado ao juramento que os médicos fazem quando se formam. O texto tem sido abreviado e modificado ao longo do tempo. Mas sabe-se, com certeza, que não foi escrito por ele.

O primeiro livro impresso em português


Especialistas do Brasil e Portugal discordam sobre qual seja o primeiro livro impresso em língua portuguesa. Para os brasileiros, foi a tradução de Sacramental, de Clemente Sanchez, publicada em 1488. Como não traz a data de edição, os portugueses consideram o Tratado de Confissom, que saiu do prelo em 1489.

Afundamento de navio britânico levou EUA a entrar na Primeira Guerra Mundial


O afundamento do Lusitânia por um submarino foi o motivo pelo qual os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial contra os alemães. O navio era britânico mas o que chocou a opinião pública foi a morte de 124 cidadãos norte-americanos, que se encontravam entre os passageiros.

Brasília: capital federal


Desde o tempo do Império que se desejava a transferência da capital do Brasil do Rio de Janeiro para o Planalto Central. Apesar de incluída já na primeira Constituição Republicana de 1891, a mudança só aconteceu em 21 de abril de 1960, por iniciativa do presidente Juscelino Kubistchek de Oliveira.

Qual é o seu talento ?


Aconteceu na sexta-feira (dia 27) a comemoração do Dia dos Estudantes do CEAT. Os alunos dos turnos matutino e vespertino juntaram-se e tiveram suas atividades pela manhã com muita festa, alegria, irreverência e um bom almoço. As turmas do noturno também marcaram presença e fecharam “com chave de ouro” esse dia festivo com música e um jantar delicioso.

Octavio Ocampo - Mona Lisa's Chair

Octavio Ocampo - Miracle of Roses

Octavio Ocampo - Marlena

O território se amplia (Parte 01/02)



Nesta teleaula você verá como ocorreu a expansão territorial do Brasil. Aprenderá que o Norte do país foi ocupado por missões religiosas, fortes e colonos, atrás de índios e das drogas da Amazônia. Além disso, saberá que a região Centro-Oeste teve suas fronteiras esticadas devido à ação dos bandeirantes paulistas e, no Sul, a expansão se deu aos poucos, por colonos e exploradores.

O território se amplia (Parte 02/02)

Igreja e Estado na aventura colonizadora (Parte 01/02)


Nesta teleaula você verá como o Estado e a Igreja atuaram durante a colonização do Brasil. Aprenderá que o Estado português se ocupou de organizar a economia e administrar a nova terra, enquanto a Igreja Católica ficou responsável pela orientação educacional, cultural e religiosa dos nativos e colonos.

Estado e Igreja na aventura colonizadora (Parte 02/02)

A colonização espanhola e inglesa na América (Parte 02/02)


Nesta teleaula você verá que, de um modo geral, as coroas européias tiveram por objetivo transformar suas colônias em áreas de exploração econômica exclusiva. Sendo assim, as colônias americanas passaram a desempenhar um papel fundamental para o desenvolvimento das economias metropolitanas, formando o chamado sistema colonial mercantilista. Além disso, você saberá que algumas colônias inglesas na América do Norte estiveram à margem desse sistema.

A colonização espanhola e inglesa na América (Parte 01/02)

Octavio Ocampo - Madonna Rocaille

Octavio Ocampo - Lupe

Octavio Ocampo - Lady in Field of Lillies

Trabalho e escravidão na América Portuguesa (Parte 01/02)


Nesta teleaula você saberá como funcionava a cultura da cana-de-açúcar nos tempos da colônia. Além disso, aprenderá por que os negros africanos foram trazidos para trabalhar como escravos e verá como a situação era diferente nas capitanias do Sul do país, onde os bandeirantes caçavam os índios para trabalho escravo.

Trabalho e escravidão na América portuguesa (Parte 02/02)

O início da colonização portuguesa (Parte 01/02)


Nesta teleaula você aprenderá que, para tornar a colonização atraente, foram criadas as capitanias hereditárias e que, com o fracasso desse sistema, surgiu uma forma de administração que centralizava o poder nas mãos do governador geral. Além disso, você verá que a região Nordeste, principalmente Pernambuco, se tornou o centro da produção de açúcar na colônia.

O início da colonização portuguesa (Parte 02/02)

Visões do Paraíso - Brasil (Parte 01/02)


Nesta teleaula você vai viajar com Pedro Álvares Cabral e Pero Vaz de Caminha. Verá que, com os portugueses, aconteceu a mesma coisa que havia acontecido com os espanhóis: quando eles chegaram à terra onde hoje é o Brasil, pensaram que tinham chegado no paraíso. Além disso, saberá quais foram os primeiros experimentos de ocupação da terra e vai conhecer os motivos, que determinaram a efetiva colonização dessa parte portuguesa da América.

Visões do Paraíso - Brasil (Parte 02/02)

O predomínio Ibérico (Parte 01/02)


Nesta teleaula você aprenderá que, durante os reinados de Carlos V e Filipe II no século XVI, a Espanha foi o mais poderoso país da Europa. Verá que a riqueza acumulada por esse país foi usada para financiar guerras na Europa, o que, junto com a intolerância religiosa que expulsou os não-católicos de lá tornou a Espanha independente. Além disso, saberá que a França, além de seguir as guerras contra a Espanha, viveu uma guerra civil entre protestantes e católicos, que começou com o massacre da noite de São Bartolomeu.

O predomínio Ibérico (Parte 02/02)

As Reformas Religiosas (Parte 01/02)


Nesta teleaula você verá porque a Igreja Católica começou a ser criticada com o fim da Idade Média. Além disso, aprenderá quem foi Martinho Lutero e como a Igreja reagiu e se reorganizou com a Contra-Reforma.

As Reformas Religiosas (Parte 02/02)

A Segunda Guerra Mundial: uma catástrofe humana.


A Segunda Guerra Mundial, iniciada setembro de 1939, foi a maior catástrofe provocada pelo homem em toda a sua longa história. Envolveu setenta e duas nações e foi travada em todos os continentes (direta ou indiretamente). O número de mortos superou os cinqüenta milhões havendo ainda uns vinte e oito milhões de mutilados.
É difícil de calcular quantos outros milhões saíram do conflito vivos, mas completamente inutilizados devido aos traumatismos psíquicos a que foram submetidos (bombardeios aéreos, torturas, fome e medo permanente). Outra de suas características, talvez a mais brutal, foi a supressão da diferença entre aqueles que combatem no fronte e a população civil na retaguarda. Essa guerra foi total. Nenhum dos envolvidos selecionou seus objetivos militares excluindo os civis.

 
Imagem de Hiroshima após bombardeio em 06/08/1945

Clubes de futebol foram alvo da vigilância da polícia política durante a 2ª Guerra Mundial

Pesquisa do historiador Alfredo Oscar Salun aponta que na época da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1942, Corinthians e Palmeiras foram forçados a expulsar cerca de 150 sócios de origem estrangeira, inclusive alguns de seus dirigentes. Os dois clubes estavam entre as entidades atingidas pela legislação repressora do Estado Novo, especialmente de 1941 até 1945, quando aumentou o rigor na vigilância da polícia política aos grupos estrangeiros e seus descendentes.

Ironia e Filosofia (Parte 10/10)

Machado de Assis (1839-1904)

A Ironia em Machado de Assis

A ironia é um recurso de pensamento freqüentemente utilizado na literatura brasileira. Consiste em dizer o contrário do que se está pensando ou em satirizar, questionar certo tipo de comportamento com a intenção de ridicularizá-lo, de ressaltar algum aspecto passível de crítica. Machado de Assis assume o realismo para questionar os valores da sociedade carioca fundada no romantismo burguês europeu e decadente do século XIX. Para isso o autor cria um personagem: Brás Cubas. Em Memórias Póstumas de Braz Cubas, um romance considerado realista, Machado de Assis dá vida a um narrador que já está morto a fim de narrar a vida com total isenção, e descomprometimento. Ironicamente, Brás Cubas assim escreve a dedicatória do livro: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas”. Leiamos um fragmento de Memórias Póstumas de Brás Cubas:

Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirto que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência. (...) Mas, na morte, que diferença! Que desabafo! Que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despregarse, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigo s, nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se estenda para cá, e nos não examine julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.(Machado de Assis)

Machado de Assis, a partir do realismo, faz uma forte crítica ao romantismo. O romantismo exerceu forte influência na elite burguesa carioca do final do século XIX apropriando-se do ideário burguês europeu. Ao criar o personagem Brás Cubas, Machado de Assis buscará, por meio da ironia, criticar esse ideário burguês. Ao dedicar o livro ao “verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”, Brás Cubas ironiza o sentimento de superioridade da elite carioca, indicando que todos serão comidos pelos mesmos vermes. Ao contrário de Sócrates, que na visão de Merleau-Ponty, já visto anteriormente, não gozava de imunidade literária, para Brás Cubas essa imunidade não é suficiente, pois somente a morte é que lhe permite falar livremente de si e dos vivos, fazendo pouco caso do julgamento desses últimos.

Ironia e Filosofia (Parte 09/10)

Chico Buarque, Paulinho da Viola e Caetano Veloso - anos 70

A Ironia na Música

A ironia não é privilégio da filosofia. Ela ocorre na literatura, na música, na comédia. Sua característica principal é remeter-se a uma determinada situação social para interrogá-la.
Para entender a utilização da ironia na música podemos nos remeter a um período histórico do Brasil bastante recente. O período da ditadura militar que foi de 1964 a 1984. Durante boa parte desta fase de nossa história os cidadãos eram proibidos de expressar seus pensamentos a respeito da política, da economia e até da sexualidade. Neste período as obras de arte como filmes, novelas e músicas eram censuradas pelo poder público. Assim como Sócrates na Grécia antiga, no Brasil muitas pessoas foram presas, exiladas e mortas por insistirem em defender o direito a liberdade de pensamento. Como Sócrates, algumas músicas utilizaram a ironia como forma de questionar aqueles que se afirmam pelo poder da força física e não pela qualidade de seus argumentos. Podemos citar Chico Buarque de Holanda, cantor e compositor que no período da ditadura utilizou a música como forma de se engajar na luta contra a ditadura. A esse tipo de música podemos denominar “arte engajada”. A música “Acorda amor” é um exemplo do engajamento da arte nas questões sociais e políticas do Brasil.

Acorda amor
Eu tive um pesadelo agora
Sonhei que tinha gente lá fora
Batendo no portão, que aflição
Era a dura, numa muito escura viatura
Minha nossa santa criatura
Chame, chame, chame lá
Chame, chame o ladrão, chame o ladrão

Composição: Leonel Paiva/Julinho da Adelaide (Chico Buarque de Holanda). http://chico-buarque.letras.terra.com.br/

Ironia e Filosofia (Parte 08/10)


HISTÓRIA E ALIENAÇÃO

Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar-se nessa linguagem emprestada.

(...) Inteiramente absorta na produção da riqueza e na concorrência pacífica, a sociedade burguesa não mais se apercebe de que fantasmas dos tempos de Roma haviam velado seu berço. Mas por menos heróica que se mostre hoje esta sociedade, foi não obstante necessário heroísmo, sacrifício, terror, guerra civil e batalhas de povos para torná-la uma”. realidade. E nas tradições classicamente austeras da república romana, seus gladiadores encontraram os ideais e as formas de arte, as ilusões de que necessitavam para esconderem de si próprios as limitações burguesas do conteúdo de os ideais e as formas de arte, as ilusões de que necessitavam para esconderem de si próprios as limitações burguesas do conteúdo de suas lutas e manterem seu entusiasmo no alto nível da grande tragédia histórica”. (MARX, 1977, p. 18-19)

A ironia moderna destrói os novos mitos que se sustentam na pretensão de domínio e de poder, de uma razão capaz de tudo explicar e conter. Mostra o avesso das coisas, o que se oculta por trás dos projetos de uma sociedade tecnocrática, os paradoxos de uma sociedade que concentra a riqueza nas mãos de poucos e geram as várias formas de violência que fazem parte do nosso cotidiano e que nos torna cativos.

Ironia e Filosofia (Parte 07/10)

Karl Marx e Friedrich Engels

Alienação e Ironia

Ao estudar a história econômica e política da humanidade Marx e Engels desenvolvem o conceito de alienação. Existem muitas formas de alienação e uma delas é a alienação do trabalho. Este conceito nos permite entender como a humanidade está sujeita a uma ironia, ou seja, a história aparente esconde o seu real significado.
Podemos entender o conceito de alienação a partir do conceito de trabalho. O que é trabalho? Desde os tempos mais remotos o ser humano foi obrigado a buscar as condições de sobrevivência no planeta. Fez isso por meio de sua inteligência utilizando sua criatividade e força física para produzir suas condições de sobrevivência. Foi isso que o diferenciou dos demais animais. O trabalho é o resultado do uso da capacidade criativa do homem para transformar a natureza e garantir sua sobrevivência. Ocorre que ao trabalhar o homem transforma o mundo e a si. Pois ao produzir coisas para si, ele acaba também se produzindo naquilo que produz. Ele se reconhece naquilo que faz, pois tem sentido e significado pessoal e coletivo. Por meio do trabalho o homem busca e consegue sua identidade, pois se reconhece naquilo que produz.
Com a revolução industrial e o surgimento das linhas de produção em série há uma separação entre a criação inventiva do homem e a força que transforma a natureza. Os trabalhadores produzem coisas que não são frutos de sua capacidade criadora e inventiva. Eles apenas executam tarefas numa linha de produção. Quem pensou criativamente não realiza o que idealizou. E quem executa não pensou. Ocorre, portanto, a separação entre o pensar e o fazer. Quem pensa não faz e quem faz não idealizou o objeto que será produzido. Pior ainda, a linha de montagem não permite que o trabalhador domine todo o processo de produção, pois realiza apenas uma pequena tarefa na linha de montagem. Já não se reconhece mais naquilo que produz. Se antes ao produzir um sapato ele se reconhecia como um sapateiro. Agora na linha de produção ele é apenas um operário. Uma peça na linha de montagem. Se ele era reconhecido em sua comunidade por aquilo que fazia para garantir sua sobrevivência e a do grupo, agora ele é apenas mais um componente da linha de produção que poderá a qualquer momento ser substituído, descartado e em seu lugar será colocado outro que fará o mesmo trabalho que ele faz. Nisto se constitui a alienação. O ser humano se vê separado do que faz, do que produz, do significado daquilo que produz. Já não o representa.
O trabalho que deveria, como antes, transforma o mundo para melhorar as condições de vida do homem, tornasse agora um instrumento de dominação, de perda de sentido e significado da vida. Torna-se mais importante que o próprio ser humano. Torna-se fonte de lucro e exploração. O que é irônico nisto é que o trabalho como força criadora de transformação da natureza para garantir a liberdade do homem, na sociedade capitalista, separa o homem do significado de sua existência tornando-o incapaz de reconhecer-se naquilo que faz e reconhecer seus semelhantes. Nisto se constitui a alienação do trabalhador.
A ironia está em que a realidade apresenta dois sentidos, um aparente e outro real, oculto de modo astuto por um discurso político, pela forma de pensar cotidiana, pela história linear sedimentada em fatos cronológicos que assinalam as vitórias da classe dominante. A ironia está em que os homens agem a partir de certos objetivos para alcançar certos fins, porém, a forma como as relações sociais se constroem e as idéias se produzem acabam gerando uma outra realidade, diferente do sonho inicial que moveu os homens para a ação.

Ironia e Filosofia (Parte 06/10)

Karl Marx (1818-1883)

A Ironia Moderna

Entre os modernos, salientamos Marx e Engels como os pensadores que exerceram a ironia ao longo de todo seu trabalho teórico. Suas reflexões filosóficas e políticas apreenderam o escondido nas profundezas de estrutura do modo capitalista de produção e, ao vincular filosofia e história, “(...) restituíram à negação seu poder revolucionário (...)” (LEFEBVRE, 1969, p. 25-26)
A ironia torna-se então instrumento para desmistificar o modo de pensar alienado, a fim de descobrir a verdade subjacente à ordem instituída, a verdade dos oprimidos, explorados e emudecidos, que mantém a sociedade em funcionamento com o fruto de seu trabalho. Ao buscar “(...) no social a verdade da política e da história e nas classes a verdade da economia política, os dois compadres (Marx e Engels) descobriram a ironia objetiva da história mundial, que traz aos homens outra coisa que eles esperavam e queriam”. (LEFEBVRE, 1969, p. 26)

Ironia e Filosofia (Parte 05/10)

Sócrates e Alcebíades

A Ironia na História da Filosofia

A ironia é uma forma de tratar o saber e aparece na história também como reação ao dogmatismo, isto é, quando existem verdades impostas pelas crenças ou pela autoridade, impedindo as pessoas de pensar e manifestar suas opiniões. Conforme Merleau-Ponty,

(...) a vida e a morte de Sócrates são a história das difíceis relações que o filósofo, que não é protegido pela imunidade literária, mantém com os deuses da cidade, isto é, com os outros homens e com o absoluto imobilizado cuja imagem lhe apresentam (...) ( MERLEAU-PONTY, s/d., p. 46)

O exercício da filosofia, enquanto interrogação sobre as várias instâncias do real, questiona a ordem instituída e, à medida que analisa e pondera, interfere na ação. Nas suas observações sobre Sócrates Merleau-Ponty acrescenta:

(...) a ironia de Sócrates é uma relação distante, mas verdadeira, com outrem, que exprime este dado fundamental de que cada um, sendo inelutavelmente ele próprio, no entanto se reconhece no outro, e procura desligar um do outro pela liberdade (...) ( MERLEAU-PONTY, s/d p. 51)

A ironia é uma forma de filosofar que retorna em outros momentos da história, com outros sentidos: por exemplo, Montaigne, ao afirmar que “nem ele nem ninguém saberá nada de certo”, (LEFEBVRE, 1969 p. 14) aplica a ironia no contexto do que se chama ceticismo.
Montaigne foi um filósofo do século XVI que viveu numa época de muitos conflitos, transformações sociais e questionamentos do pensamento vigente na idade média. O pensamento de Montaigne refletiu estas contradições de tal modo que as oscilações, as alusões, a ausência de sistematicidade, tornam-no um pensador peculiar. Como outros intelectuais de seu tempo, buscou inspiração na antigüidade, mais precisamente no ceticismo grego e romano.
O pensamento cético pode ser encontrado em Protágoras, cujas proposições relativizam todo o conhecimento, isto é, o homem é a medida de todas as coisas, não havendo certeza a respeito do conhecimento da natureza e das coisas. Curiosamente, ao afirmar que não há possibilidade de um conhecimento certo sobre as coisas, os céticos aproximam-se da proposição socrática “só sei que nada sei”. Sócrates, porém, confia na razão e empenha-se em procurar a verdade.

CETICISMO

“O ceticismo foi desenvolvido inicialmente por Pirro (367-275 a.C.) (...) Segundo Pirro, o homem não é capaz de atingir qualquer verdade no âmbito da ciência ou da filosofia. As únicas “verdades” são de caráter subjetivo e não podem ser consideradas propriamente verdades, pois não passam de simples impressões, que não nos garantem a certeza. Não temos acesso à essência das coisas, conhecemos somente as suas aparências. Diante disso, a mais sábia das atitudes do homem é a abstenção ou suspensão dos juízos (epoké). A versão mais conhecida do ceticismo é o probabilismo. Nesta versão incentiva-se a desconfiança permanente em relação à verdade sem, no entanto, fechar-se completamente à hipótese de sua probabilidade. Assim, cético é o que observa, desconfia, e espera o desenrolar dos fatos para, só então, se pronunciar (em grego, sképsis significa o olhar de quem analisa, considera)”. (HRYNIEWICZ, 2001, p. 288)


Dos nossos ódios e afeições

“O temor, o desejo, a esperança, jogam-nos sempre para o futuro, sonegando-nos o sentimento e o exame do que é, para distrair-nos com o que será, embora, então, já não sejamos mais. ‘Todo espírito preocupado com o futuro é infeliz’”.
“ ‘Fazer aquilo para que és feito e conhece-te a ti mesmo’, eis um grande preceito amiúde citado em Platão. E cada um dos membros dessa proposição já nos apontam o nosso dever; e traz em si o outro. Quem se aplicasse em fazer aquilo para que é feito perceberia que lhe é necessário adquirir antes de mais nada o conhecimento de si próprio e daquilo que está apto. E quem se conhece não erra acerca de sua capacidade, porque se aprecia a si mesmo e procura melhorar, recusando as ocupações supérfluas, os pensamentos e os projetos inúteis. Da mesma forma que a loucura não se satisfaz ainda que cedamos a seus desejos, a sabedoria, sempre satisfeita com o presente, nunca se descompraz consigo mesma. A ponto de Epicuro considerar que nem a previdência nem a preocupação com o futuro são peculiares ao sábio”. (MONTAIGNE, 1972, p. 17)

A ironia socrática interroga para buscar um sentido oculto e desconhecido pelo homem, ancorado em crenças e dogmas. A ironia moderna descobre o duplo sentido e, com ele, a relatividade da verdade, a fragmentação e a fraqueza do pensamento que não consegue consolidar-se em sistema. Ambos se aproximam na prática do duvidar e interrogar, no valor que atribuem ao homem, na sua dignidade sedimentada na liberdade de pensamento e em, principalmente, no reconhecimento de sua fragilidade existencial.

Ironia e Filosofia (Parte 04/10)


A missão de Sócrates

“A ignorância mais condenável não é essa de supor saber o que não sabe? É talvez nesse ponto, senhores, que difiro do comum dos homens; se nalguma coisa me posso dizer mais sábio que alguém, é nisto de, não sabendo o bastante sobre o Hades , não pensar que o saiba. Sei, porém, que é mau e vergonhoso praticar o mal, desobedecer a um melhor do que eu, seja deus, seja homem; por isso, na alternativa com males que conheço como tais, jamais fugirei de medo do que não sei se será um bem.
“Portanto, mesmo que agora me dispensásseis, desatendendo ao parecer de Ânito, segundo o qual, antes do mais, ou eu não devia ter vindo aqui, ou, já que vim, é impossível deixar de condenar-me à morte, asseverando ele que, se eu lograr absolvição, logo todos os vossos filhos, pondo em prática os ensinamentos de Sócrates, estarão inteiramente corrompidos; mesmo que, apesar disso, me dissésseis: ‘Sócrates, por ora não atenderemos a Ânito e te deixamos ir, mas com a condição de abandonares essa investigação e a filosofia; se fores apanhado de novo nessa prática, morrerás’; mesmo, repito, que me dispensásseis com essa condição, eu vos responderia:
‘Atenienses, eu vos sou reconhecido e vos quero bem, mas obedecerei antes ao deus que a vós; enquanto tiver alento e puder fazê-lo, jamais deixarei de filosofar, de vos dirigir exortações, de ministrar ensinamentos em toda ocasião àquele de vós que eu deparar, dizendo-lhe o que costumo: ‘Meu caro, tu, um ateniense, da cidade mais importante e mais reputada por sua cultura e poderio, não te pejas de cuidares de adquirir o máximo de riquezas, fama e honrarias, e de não te importares nem cogitares da razão, da verdade e de melhorar quanto mais a tua alma?’ E se alguém de vós redargüir que se importa, não me irei embora deixando-o, mas o hei de interrogar, examinar e confundir e, se me parecer que afirma ter adquirido a virtude e não a adquiriu, hei de repreendê-lo por estimar menos o que vale mais e mais o que vale menos. É o que hei de fazer a quem eu encontrar, moço ou velho, forasteiro ou cidadão, principalmente aos cidadãos, porque me estais mais próximos no sangue. Tais são as ordens que o deus me deu, ficai certos. E eu acredito que jamais aconteceu à cidade maior bem que minha obediência ao deus”. (PLATÃO, 1972, p. 21)

Ironia e Filosofia (Parte 03/10)

Execução de Sócrates com cicuta

A Filosofia como Exercício da Ironia

O surgimento da pólis como a primeira experiência da vida pública enquanto espaço de debate e deliberação, tornou o campo fértil para a fecundação e o florescimento da filosofia. E a figura emblemática dessa época, que nada escreveu e da qual se fala até os nossos dias como o modelo de filósofo, foi Sócrates.
Na praça pública, Sócrates interrogava os homens e instigava-os a refletir sobre si e sobre o mundo. Sócrates foi uma figura misteriosa, que questionava as pessoas que encontrava dizendo buscar a verdade. Conforme acentua Lefebvre, (1969, p. 11) “(...) voltando-se para fora e para o público, Sócrates interroga os atores para saber se eles sabem exatamente porque arriscam suas vidas, a felicidade ou a falta de felicidade (...)”, assim como a felicidade dos outros. Sócrates é aquele que chega de mansinho e, sem que se espere, lança uma pergunta que faz o sujeito olhar para si e perguntar: afinal, o que faço aqui? É isso o que realmente procuro ou desejo?
O que é a ironia socrática? O próprio Sócrates, nos diálogos platônicos, diz que seu destino é investigar, já que a única verdade que detém é a certeza de que nada sabe. Interrogava, portanto, para saber e, empenhado nessa tarefa, não raro surpreendia as pessoas em contradições, resultantes de crenças aceitas de modo dogmático, de pretensas verdades admitidas sem crítica.
A ironia tinha que ser acompanhada da maiêutica, isto é, o método socrático constituía-se de duas partes: a primeira mostrava os limites, as falhas, os preconceitos do pensamento comum e a segunda iniciava no processo de busca da verdadeira sabedoria. Numa situação de conflito e de incertezas o ironista, depois de realizar o exercício da desconstrução e da negatividade, deve ajudar as pessoas a darem a luz às verdades que, no entender de Sócrates, traziam dentro de si. O exercício do filosofar, a partir das verdades encontradas, abria caminhos para múltiplas possibilidades de escolha e ação.
As perguntas de Sócrates não visavam confundir as pessoas e ridicularizar seu conhecimento das coisas, mas, motivá-las a alcançar um conhecimento mais profundo, não só de si próprias, mas também dos outros, dos objetos e do mundo que as rodeava, provocando nelas novas idéias. Essa era a sua maneira de filosofar, sua “arte de partejar”, de ajudar as pessoas a parir, a dar a luz às novas idéias, arte que dizia ter aprendido com sua mãe, que ajudava as mulheres a dar a luz aos seus filhos. A interrogação de Sócrates expunha os saberes dos sujeitos e, ao mesmo tempo, mostrava o quanto as pessoas não tinham consciência daquilo que realmente sabiam.
Essa atitude, como dizem os historiadores, fez de Sócrates uma figura singular e lhe angariou alguns amigos e muitos inimigos. Embora parecesse neutra e sem um objetivo preciso (Sócrates parecia não ser partidário de nenhuma das tendências da época e não defendeu explicitamente nenhum regime político), essa atitude questionava poderes instituídos, valores consolidados e, por isso, também pediam mudanças. Com a ironia, ao trazer à tona os limites dos argumentos comuns, ao mostrar as contradições ocultas na ordem comumente aceita, ao revelar, ao abalar as certezas que fundavam o cotidiano, Sócrates convida ao filosofar como um processo metódico de elaboração de novos saberes.
Ao afirmar que também ele nada sabia, queria apenas dizer que um novo caminho para chegar-se a uma nova verdade seria indispensável. Se ele soubesse esta nova verdade, ele não diria que nada sabia, pois apenas sabia o caminho, isto é, o começo do conhecimento e ele queria saber mais.

Sócrates proclama que ele não sabe nada, e esta é sua maneira de trazer à luz o que ele sabe e o que já sabiam as pessoas honestas à sua volta, (hora pessoas honestas, acreditam saber tudo e é preciso ironizar um pouco delas para confrontá-las entre si e ensinar-lhes que elas só tinham opiniões contraditórias, cuja verdade devia extrair-se do que tivesse verdade!). (LEFEBVRE, 1969, p. 14)

Sócrates, por meio de sua atividade, mostra-nos que o exercício do filosofar é, essencialmente, o exercício do questionamento, da interrogação sobre o sentido do homem e do mundo. A partir dessa atividade Sócrates enfrentou problemas, foi julgado e condenado à morte. Na história, a filosofia questionadora incomoda o poder instituído, porque põe em discussão relações e situações que são tidas como verdadeiras. A filosofia procura a verdade para além das aparências.


A coruja é o símbolo da filosofia, pois consegue enxergar o mundo mesmo nas noites mais escuras. A constituição física de seu pescoço permite que ela veja tudo a sua volta. Essa seria a pretensão da filosofia, por meio da razão poder ver racionalmente e entender o mundo mesmo nos seus momentos mais obscuros. E ainda, procurar enxergá-lo sob os mais diversos ângulos possíveis.

Ironia e Filosofia (Parte 02/10)

Atena a deusa grega da sabedoria e da arte

O que é Filosofia?

Que relação existe entre a realidade descrita acima e o pensamento filosófico? A filosofia nasceu como uma forma de pensar específica, como interrogação sobre o próprio homem como ser no mundo, quando o homem passou a confrontar-se com as entidades míticas e religiosas e procurou uma explicação racional para a sua existência e a existência das coisas. De uma explicação mítica, que entendia que o homem e todas as coisas tinham sido gerados por deuses, o homem elaborou novas explicações racionais a partir da reflexão sobre si e sobre o mundo. Para tanto, o homem criou novos métodos de abordagem da realidade, métodos que possibilitavam identificar relações causais, princípios explicativos existentes nas próprias coisas e que, depois de identificados, permitiam descobrir uma certa regularidade nos fenômenos naturais e a criação de instrumentos de medida e de previsão dos acontecimentos. A filosofia nasceu junto com as ciências, buscou referencial na matemática, na astronomia e, aos poucos, definiu seus limites e suas características próprias. Por exemplo: os primeiros relógios, o da água ou o do sol, iniciaram a medida do tempo. A filosofia desenvolveu novas leituras da temporalidade, as quais não dependem necessariamente do relógio, mas certamente a medida do tempo cronológico tem relações profundas com a reflexão sobre a origem de todas as coisas, o movimento ou o vir-a-ser, que se tornaram temas recorrentes na filosofia.
Quando dizemos que os primeiros filósofos pensavam na origem dos tempos, precisamos lembrar que, para os gregos, não se tratava do começo dos tempos, mas da participação do homem na ordem universal, que os gregos denominavam cosmos. A origem pode ser tanto o começo ou a infância, como a permanência de tudo no movimento de geração e envelhecimento de todas as coisas, porque não se entendia um começo e um fim, mas o movimento por meio do qual todas as coisas se transformavam. Dessa forma, a filosofia era entendida como teoria, isto é, compreensão do real enquanto movimento. O filósofo é, na Grécia antiga, o homem que pergunta de modo radical, isto é, busca a raiz, o significado mais fundo de todas as coisas.

Ironia e Filosofia (Parte 01/10)


Quem são os carcereiros, quem são os cativos? Poder-se-ia dizer que, de algum modo, todos nós estamos presos. Os que estão dentro das prisões e os que estamos fora delas. São livres, acaso, aqueles que são prisioneiros da necessidade, obrigados a viver para trabalhar porque não podem dar-se ao luxo de trabalhar para viver? E os prisioneiros do desespero, que não têm trabalho nem o terão, condenados a viver roubando ou fazendo milagres? E os prisioneiros do medo, acaso somos livres? E acaso não somos todos prisioneiros do medo, os de cima, os de baixo e também os do meio? Em sociedades obrigadas ao salve-se quem puder, somos prisioneiros, os vigias e os vigiados, os eleitos e os parias. (GALEANO, 1999, p. 110)

violência policial contra manifestantes no campo

Ironia e Filosofia

Observando o mundo à nossa volta, vemos que todos somos prisioneiros: os filhos abastados vivem atrás das grades dos condomínios, cercados de seguranças; os filhos dos pobres são prisioneiros da violência nas ruas, nos sinaleiros, onde vendem bugigangas. E todos ouvem falar que a Sociedade Moderna é aquela que melhor realizou o ideal de liberdade defendido há duzentos e vinte e um anos pela Revolução Francesa. Como se pode entender neste contexto a afirmação da liberdade? Não é irônico que aqueles que se dizem livres por ter atingido o ideal de liberdade proposto pela sociedade capitalista sejam também prisioneiros do medo e da violência? O que podemos aprender com esta situação?


Texto produzido por Ademir Aparecido Pinhelli Mendes para a Secretaria de Estado da Educação do Paraná.

O Brasil na Segunda Guerra Mundial (Parte 01/02)



Nesta teleaula você vai estudar a base econômica do Estado Novo e saberá como o governo organizou as relações entre empresários e trabalhadores. Além disso, vai ver que esse regime foi contemporâneo às transformações que levaram o mundo à Segunda Guerra Mundial e como foi a participação do Brasil nesse conflito.

O Brasil na Segunda Guerra Mundial (Parte 02/02)

O Estado Novo (Parte 01/02)


Nesta teleaula você verá que, no governo Getúlio Vargas, a criação dos direitos sociais fez parte de um projeto político de construção nacional que restringia a cidadania política, privando os brasileiros do direito de manifestação, de participação, de voto e de organização partidária.

O Estado Novo (Parte 02/02)

A Revolução de 1930 no Brasil (Parte 01/02)


Nesta teleaula você vai estudar um pouco mais a Revolução de 30. Verá quais foram as forças políticas e econômicas que saíram vitoriosas e conhecerá as principais transformações que essa revolução provocou no país. Além disso, entenderá como Getúlio Vargas conseguiu ficar no poder durante 15 anos seguidos.

A Revolução de 1930 no Brasil (Parte 02/02)

Rainha Carlota Joaquina era rabugenta e odiava o marido.

Carlota Joaquina com D. João VI

Feiosa, descrita pelos cronistas da época como tendo feições masculinas, a rainha Carlota Joaquina, mulher de D. João VI, era intratável. A rabugice tem sido atribuída pelos historiadores ao fato de ter sido obrigada a casar-se aos 10 anos de idade, por razões de estado. Odiou o marido a vida toda e até conspirou para matá-lo.

Família imperial foi banida pela República e só pôde retornar em 1922.

Esquife de Dom Pedro I - Museu do Ipiranga (SP)

Banida em 1889 pela República, a família imperial só pôde voltar ao Brasil em 1922 quando, nos festejos do centenário da Independência, o presidente Epitácio Pessoa revogou o decreto de banimento. Só então os despojos de Pedro II e D. Teresa Cristina foram trasladados de um cemitério de Lisboa para a Catedral de Petrópolis.

Confúcio era só apelido


O filósofo chinês Confúcio não se chamava assim. O nome era Chiu e o sobrenome, Kung. Por ser nobre, era tratado cerimoniosamente por Fu. Os jesuítas portugueses quando chegaram à China, entenderam o Kung-Fun-Chiu – Dom Ciu, da família Kung – como Confucius, forma que foi consagrada no mundo ocidental.

As primeiras armas utilizadas pelo homem


O arco e a flecha foram as primeiras armas usadas pelo homem. Datam do período da pedra lascada. Estes arcos primitivos eram grandes: arcos tinham dois metros de altura e usavam tripas ou tendões de animais para lançar as flechas.

Incêndios quase detruíram Londres


Londres nunca sofreu terremotos, mas detém o recorde de incêndios gigantescos que quase a destruíram nos anos de 962, 1087, 1262 e 1666. Durante a II Guerra, quase a metade da cidade foi demolida pelos bombardeios alemães.

A Amizade (Parte 07/07)

Charles Darwin (1809-1882)

O Homem: Animal e Racional

Na ética, Aristóteles, preocupa-se em orientar o agir em função da razão, pois por viver em sociedade e em relação a outros homens, desenvolve-se por meio da razão a cultura, ou seja, o modo de viver que é pautado pela racionalidade.
A partir do que apresenta Aristóteles sobre a amizade e, obviamente, como componente ético do agir humano, é possível elencar a seguinte questão: O homem é resultado daquilo que a natureza e a biologia fizeram dele ou, é um produto do meio social e cultural?
Para ajudar na busca de solução a esta questão, tendo como foco a importância que Aristóteles dedica a amizade, e a necessidade de o homem desenvolver determinados hábitos para viver em sociedade e, portanto, poder contribuir com o bem-estar; apresenta-se a discussão do biólogo Charles Darwin, que trata o homem enquanto ser biológico, ou seja, animal. O estudo que Charles Darwin realiza tem como foco o desenvolvimento da vida ao longo do tempo no planeta. Nesta busca, Darwin parte da tese de que as diferentes espécies de vida existentes no planeta evoluem.
Mas ao considerar a evolução da vida e, portanto, das espécies trata o homem também como um ser que sofre os mesmos processos na busca de preservar a vida e a espécie. Esta abordagem considera o homem em sua animalidade. É claro que ao fazer isso, Darwin não quer negar o desenvolvimento da cultura e a influência da mesma para a vida humana.
Em um dos capítulos de sua obra A origem das Espécies, de 1859, Darwin trata da luta pela existência, onde discorre sobre como no meio animal as diversas espécies agem em busca de garantir sua existência. Darwin denomina luta por entender que há um conflito de interesses entre as diversas espécies que habitam o meio e que procuram em função do meio garantir a existência.

Tudo o que podemos fazer é ter sempre em mente a idéia de que todos os seres vivos pelejam por aumentar em proporção geométrica, e que cada qual, pelo menos em algum período de sua vida, ou durante alguma estação do ano, seja permanentemente, ou então de tempos em tempos, tem de lutar por sua sobrevivência e está sujeito a sofrer considerável destruição. Quando refletimos sobre essa luta vital, podemos consolar-nos com a plena convicção de que a guerra que se trava na natureza não é incessante, nem produz pânico; que a morte geralmente sobrevém de maneira imediata e que os mais resistentes, os mais fortes, os mais saudáveis e os mais felizes conseguem sobreviver e multiplicar-se. (DARWIN, 1994, p. 87)

Darwin apresenta uma conclusão a partir da série de observações que fez da natureza. O que é bastante claro é o fato de que no reino natural ocorre constantemente a luta pela sobrevivência, e isto é visível, sobretudo quando se observa a intervenção do homem no meio.
Destaca-se o fato de que, para Darwin, o homem é um animal e que por mais vantagens que tenha sobre todos os demais e sobre o meio em que vive também ele é movido por suas características animais, que interferem em sua vida cotidiana.
As características animais do ser humano estarão sujeitas ou não a sua racionalidade. Portanto, quando se estuda em Aristóteles que o homem é um animal racional, constata-se que a vantagem do homem sobre os demais animais se dá pelo uso que faz da razão. A abordagem do tema amizade se torna desafiadora ao observar que o mesmo homem que, segundo Aristóteles, por meio do desenvolvimento de sua razão tem o domínio de suas emoções, sentimentos e ações, e também movidos por sua animalidade, onde predomina seus impulsos, desejos e instintos.
Para a sustentação de um pensamento ético possível, pautado na racionalidade como quer Aristóteles é possível ignorar o outro lado deste mesmo ser, ou seja, sua animalidade? Pensa-se que não, pois tais preocupações deram origem a outras ciências que buscam estudar e entender como se dá o equilíbrio entre o que há em cada ser humano: o animal e o racional.
Por isso, é bom lembrar que o próprio homem é um ser em evolução, como afirma Darwin, mas, sobretudo a ser descoberto como se pode constatar com o desenvolvimento de outras ciências que o têm como seu objeto principal de estudo e pesquisa.

A Amizade (Parte 06/07)


Amizade e Sociedade

Para entender as diversas decepções amistosas presentes em nosso dia-a-dia é preciso saber como funciona a sociedade, pois a amizade é um sentimento que fundamenta as relações sociais e todas as nossas relações são marcadas pela “ditadura da utilidade”, como afirmava Leminski. Assim explica Leminski o que pensa ser a ditadura da utilidade:

E o princípio da utilidade corrompeu todos os setores da vida, nos fazendo crer que a própria vida tem que dar lucro. Vida é dom dos deuses, para ser saboreada intensamente até que a Bomba de Nêutrons ou o vazamento da usina nuclear nos separe deste pedaço de carne pulsante, único bem de que temos certeza. O amor. A amizade. O convívio. O júbilo do gol. A festa. [...] A poesia. A rebeldia. Os estados de graça. [...] estas coisas não precisam de justificação nem de justificativas. Todos sabemos que elas são a própria finalidade da vida. (LEMINSKI, 1997, p. 77)

Leminski discute o conceito de utilidade que perpassa a sociedade contemporânea. É claro que esta discussão precisa ser analisada e não simplesmente aceita como uma verdade pronta e acabada. Basicamente a preocupação de Leminski é a de apresentar que, para a sociedade atual, o mundo da necessidade sobrepõe-se ao da liberdade. Porém, a vida, ou melhor, o que realmente dá sentido à vida, está relacionado ao mundo da liberdade. Conclui Leminski que isto é uma verdade para todas as pessoas, ou seja, que todos temos clareza disso.
Será que o poeta está certo? De fato, todos temos consciência de que o amor, a amizade são a própria finalidade da vida?
Aristóteles nos apresenta como finalidade o bem e, portanto, a felicidade. O que nos apresenta a respeito da amizade serve como referência para as relações sociais na sociedade capitalista que vivemos? O que Aristóteles apresenta como amizade perfeita é possível na sociedade onde predomina a ditadura da utilidade?

Parece que o amor é uma emoção e a amizade é uma disposição de caráter; de fato, pode-se sentir amor também por coisa inanimada, mas o amor recíproco pressupõe escolha e a escolha tem origem na disposição de caráter; além disto, desejamos bem às pessoas que amamos pelo que elas são, e não em decorrência de um sentimento, mas de uma disposição do caráter. Gostando de um amigo as pessoas gostam do que é bom para si mesmas, pois a pessoa boa, tornando-se amiga, torna-se um bem para seu amigo. Cada uma das partes, então, ama o seu próprio bem e oferece à outra parte uma retribuição equivalente, desejando-lhe bem e proporcionando-lhe prazer. A propósito, diz-se que a amizade é igualdade, e ambas se encontram principalmente nas pessoas boas. (ARISTÓTELES, 2001, p. 159)

O que diferencia o amor da amizade é o fato de que as emoções são inerentes a nós, ou seja, estão em nós e, portanto, apenas se manifestam e, inclusive, até mesmo contrárias a nossa vontade. Já a amizade é uma disposição de caráter, ou seja, algo que não está em nós, mas que possuímos condições para adquirir. E para isso exercitamos nossa capacidade de escolha. A diferença é não escolho se fico irado ou não diante de uma dada situação, mas o poder de controlar tal emoção, sentindo-a pouco, média ou muito. A disposição de caráter é esta capacidade de escolha.
Você já deve ter ouvido as pessoas falarem que “os amigos a gente escolhe, já os parentes não”. E de fato por ser a amizade uma disposição de caráter, pressupõe escolha. E Aristóteles nos diz que a amizade é igualdade e, sobretudo, pressupõe a reciprocidade. Sem reciprocidade não há amizade.

A Amizade (Parte 05/07)



O Determinante da Amizade

Havendo então três motivos pelos quais as pessoas amam, a palavra “amizade” não se aplica ao amor às coisas inanimadas, já que neste caso não há reciprocidade de afeição, e também não haverá o desejo pelo bem de um objeto [...] mas em relação a um amigo dizemos que devemos desejar-lhe o que é bom por sua causa. Entretanto, àqueles que desejam o bem desta maneira atribuímos apenas boas intenções se o desejo não é correspondido; quando há reciprocidade, a boa intenção é a amizade. (ARISTÓTELES, 2001, p. 155)

A amizade, segundo Aristóteles, pressupõe reciprocidade. É um sentimento específico para os nossos semelhantes, pois precisamos que nosso sentimento seja correspondido. É por isso que muitos comentadores de Aristóteles e estudiosos do pensamento grego afirmam que a amizade para os gregos é o “(...) que torna, entre si, semelhantes e iguais”. (VERNANT,1973)
Então, segundo Aristóteles, “(...) para que as pessoas sejam amigas deve-se constatar que elas têm boa vontade recíproca e se desejam bem reciprocamente”. (ARISTÓTELES, 2001, p. 155)

Os amigos cuja afeição é baseada no interesse não amam um ao outro por si mesmos, e sim por causa de algum proveito que obtêm um do outro. O mesmo raciocínio se aplica àqueles que se amam por causa do prazer; não é por seu caráter que gostamos das pessoas espirituosas, mas porque as achamos agradáveis. Logo, as pessoas que amam as outras por interesses amam por causa do que é bom para si mesmas, e aquelas que amam por causa do prazer amam por causa do que lhes é agradável, e não porque a outra pessoa é a pessoa que ama, mas porque ela é útil ou agradável. (ARISTÓTELES, 2001p. 155)

Há espécies de amizade em que predomina a busca pelo útil ou agradável, algo passageiro, segundo Aristóteles, pois é uma característica do ser, que Aristóteles chama de acidente, por se tratar de características que não são permanentes, pois a utilidade está sempre em mudança, pelo fato de ser o resultado de algum bem ou prazer.

Este tipo de amizade, segundo Aristóteles, parece existir principalmente entre as pessoas idosas (nesta idade as pessoas buscam não o agradável, mas o útil) e, em relação às pessoas que estão em plenitude ou aos jovens, entre aqueles que buscam o proveito. Entre estas amizades se incluem os laços de família e de hospitalidade. (ARISTÓTELES, 2001, p. 155-156)

Aristóteles afirma que entre os jovens o motivo da amizade é o prazer, por viverem sob a influência das emoções e buscarem o que lhes é agradável, porém o prazer muda com a idade. Aristóteles faz uma observação minuciosa das fases da vida e de como as emoções e o prazer são diferentes em cada uma delas. Não está, contudo afirmando ou declarando que não seja possível outro tipo de amizade nestas fases da vida, mas demonstrando o que lhes é mais comum.

A amizade perfeita é a existente entre as pessoas boas e semelhantes em termo de excelência moral; neste caso, cada uma das pessoas quer bem à outra de maneira idêntica, porque a outra pessoa é boa, e elas são boas em si mesmas. Então as pessoas que querem bem aos seus amigos por causa deles são amigas no sentido mais amplo, pois querem bem por causa da própria natureza dos amigos, e não por acidente; logo, sua amizade durará enquanto estas pessoas forem boas, e ser bom é uma coisa duradoura. (ARISTÓTELES, 2001, p. 156)

Aristóteles apresenta em que consiste uma amizade perfeita. A amizade perfeita acontecerá entre pessoas boas e semelhantes em relação à virtude, ou seja, as que fazem a escolha adequada de suas ações e emoções e que querem o bem aos amigos por causa deles mesmos, da própria natureza dos amigos e não por ser agradável ou útil. Toda amizade é baseada no bem ou no prazer. Portanto, a baseada no bem só poderá ocorrer entre pessoas boas.
Quando se fala em bem, considera-se a ética, pois pressupõe que o homem age sempre em busca de ser feliz e que conseguirá isto se buscar o bem, pois o seu contrário lhe acarretará a infelicidade. As pessoas boas são aquelas que possuem uma vida orientada pela busca do agir ético, visam o equilíbrio em suas ações e emoções.

Então, quando a amizade é por prazer ou por interesse mesmo duas pessoas más podem ser amigas, ou então uma pessoa boa e outra má, ou uma pessoa que não é nem boa nem má pode ser amiga de outra qualquer espécie; mas pelo que são em si mesmas é óbvio que somente pessoas boas podem ser amigas. Na verdade, pessoas más não gostam uma da outra a não ser que obtenham algum proveito recíproco. (ARISTÓTELES, 2001, p. 157)

Aristóteles fala da amizade que se dá pelo prazer ou interesse e a que se dá pelo que as pessoas são em si mesmas. Considera que a que se dá por prazer ou interesse poderá existir entre as pessoas más. Mas a amizade perfeita só poderá ocorrer entre as pessoas boas e semelhantes pelo fato de que amam a pessoa em si mesma.
Você já deve ter ouvido muito o ditado popular: “Diga-me com quem andas e te direi quem és”. Esse ditado popular é muito usado quando nos orientam a respeito de nossas amizades, de nossas companhias. Ele traduz o que nos ensina Aristóteles a respeito da amizade. Pois, podemos estar andando com pessoas más sem percebermos que o que em nós as atrai não é o que somos, mas o que lhes oferecemos, ou temos a oferecer. É por isso que há tantas decepções nas relações amistosas.

A Amizade (Parte 04/07)


A amizade é algo humano

Independente de qual dos dois autores você tenha escolhido, para continuar é preciso posicionar-se em relação aos problemas que Aristóteles nos apresenta, após afirmar que em ambos os casos, Heráclito e Empédocles, a amizade é examinada como um problema físico e que deve ser analisada como “(...) problemas relativos ao homem, pertinentes ao caráter e aos sentimentos”. (ARISTÓTELES, 2001, p. 154)
Para responder aos questionamentos que havia levantado, Aristóteles começa por afirmar que há várias espécies de amizade e “(...) a questão das várias espécies de amizades talvez possa ser esclarecida se antes chegarmos a conhecer o objeto do amor.” (ARISTÓTELES, 2001, p. 154)
“Parece que nem todas as coisas são amadas, mas somente aquelas que merecem ser amadas e estas são o que é bom, ou agradável, ou útil”. (ARISTÓTELES, 2001, p. 154)
Aristóteles afirma a existência de várias espécies de amizades e admite que as mesmas estejam relacionadas aos objetos de amor, ou seja, de que amamos o que é bom, ou agradável ou útil e, portanto a amizade vai estar relacionada a isto.
É preciso esclarecer que Aristóteles concebe o homem como algo que realmente é – Ato; e algo que tende a ser – Potência. Então, o homem por meio de seus atos poderá ou não realizar o que é em potência. Isto irá ocorrer em busca de sua finalidade – a felicidade. Para isso, o homem dispõe da razão que lhe serve como guia, orientadora de suas ações. Por meio da razão o homem irá construir, desenvolver hábitos e formas de agir a partir da excelência moral, a virtude, que o possibilitará fazer as escolhas equilibradas para suas ações e emoções, ou seja, buscar a harmonia.
Quando Aristóteles fala da amizade, e que a amizade perfeita é a que se dá entre pessoas boas, é preciso saber que, para Aristóteles, as pessoas não são boas em si mesmas, mas o bem e a bondade estão em potência nas pessoas, que poderão a partir de suas escolhas, atingirem ou não.
Aristóteles pressupõe a existência da amizade entre os diversos tipos de pessoas e diz que demonstra o que seja uma pessoa boa ou má é a excelência moral de suas ações. “A amizade perfeita é a existente entre as pessoas boas e semelhantes em termos de excelência moral”. (ARISTÓTELES, 2001, p. 156)

A Amizade (Parte 03/07)


A Amizade e a Justiça

Um outro conceito que Aristóteles apresenta relacionado à amizade é a justiça. Afirma que entre amigos não há necessidade de justiça.
Aristóteles pressupõe a vida do homem na pólis, na cidade, por ser o homem um ser social. O conceito de justiça está diretamente ligado à vida na pólis. Quando se fala da pólis é preciso esclarecer que existem dois espaços: o da pólis – público e, o do oikos, da casa, o privado.
A amizade entre os cidadãos Aristóteles denomina concórdia. Segundo ele a amizade não é apenas necessária, mas também nobilitante, ou seja, nobre, louvável. Conclui que a amizade e a bondade encontram-se nas pessoas que são amigas de seus amigos. Antes de opinar sobre o que seja a amizade, Aristóteles apresenta o que os estudiosos de sua época diziam, ou seja, alguns filósofos que o antecederam ou foram seus contemporâneos.

Mas não poucos aspectos da amizade são objeto de debates. Alguns estudiosos do assunto definem a amizade como uma espécie de semelhança entre as pessoas e dizem que as pessoas semelhantes são amigas – daí vem os provérbios como “o semelhante encontra seu semelhante “[...].Outros tentam achar uma explicação mais profunda e mais física para este sentimento. Eurípides, por exemplo, escreve: “A terra seca ama a chuva, e o divino céu pleno de chuva ama molhar a terra! “Heráclitos, em contraste, diz: “Os contrários andam juntos”, “A mais bela harmonia é feita de tons diferentes” e “Tudo nasce do antagonismo!” Outros sustentam um ponto de vista oposto a este, principalmente Empédocles, segundo o qual “o semelhante busca o semelhante”. (ARISTÓTELES, 2001, p. 154).

De acordo com os estudiosos, segundo Aristóteles, basicamente dois princípios definem o sentimento amizade: o de Heráclito – “Os contrários andam juntos” e o de Empédocles – “O semelhante busca o semelhante”. É preciso esclarecer que tanto Heráclito como Empédocles apresentam uma explicação física para a amizade.

A Amizade (Parte 02/07)

Pe. Antônio Vieira

A Amizade como uma questão para a Ética

A amizade foi também motivo de investigação em Aristóteles na obra, Ética a Nicômacos, nos livros IX e X, discorre de forma minuciosa e exaustiva sobre o tema.

A amizade parece também manter as cidades unidas, e parece que os legisladores se preocupam mais com ela do que com a justiça; efetivamente a concórdia parece assemelhar-se à amizade, e eles procuram assegurá-la mais do que tudo, ao mesmo tempo que repelem tanto quanto possível o facciosismo, que é a inimizade nas cidades. Quando as pessoas não têm necessidade de justiça, enquanto mesmo quando são justas elas necessitam da amizade; considera-se que a mais autêntica forma de justiça é uma disposição amistosa.
E a amizade não é somente necessária; ela também é nobilitante, pois louvamos as pessoas amigas de seus amigos, e pensamos que uma das coisas mais nobilitantes é ter muitos amigos; além disto, há quem diga que a bondade e a amizade se encontram nas mesmas pessoas. (Aristóteles, 2001, p.153-154)

Aristóteles apresenta a amizade como fundamental para a união das cidades e dos povos. A inimizade entre as cidades e países gera conflitos e guerras, por isso a preocupação dos legisladores em evitar que haja divisões.
Para entender melhor a questão da amizade como uma questão ética é preciso ter claro o que Aristóteles pressupõe, ou seja, os valores que fundamentam e dão sustentação à amizade. A amizade perfeita, que poderíamos aqui denominar de verdadeira, ocorre entre pessoas boas e inexiste a calúnia, pois há confiança e sinceridade, já que pessoas boas gostam do que é bom. E por que Aristóteles diz isso? Por entender que “(...) aquilo que é irrestritamente bom e agradável parece ser estimável e desejável, e para cada pessoa o bom ou o agradável é aquilo que é bom ou agradável para ela; e uma pessoa boa é desejável e estimável para outra pessoa por ambas estas razões [...] a pessoa boa, tornando-se amiga, torna-se um bem para seu amigo” (ARISTÓTELES, 2001, p.159).
Então a amizade para Aristóteles está diretamente ligada à bondade. E a bondade é algo agradável e desejável e por isso torna-se busca para as pessoas boas. Mas o que nos torna bons, segundo Aristóteles, é o fato de agirmos de forma acertada, buscando em tudo a mediania, o equilíbrio em nossas ações e diante de nossas emoções. A amizade está relacionada a esta mediania, equilíbrio por ter como características e causas a boa disposição e a sociabilidade, pois “(...) as pessoas boas são ao mesmo tempo agradáveis e úteis. (ARISTÓTELES, 2001, p. 160)
Ao mesmo tempo em que Aristóteles apresenta as características e causas da amizade e as afirma nas pessoas boas, procura destacar que nem sempre as pessoas estão em igualdade de situação nas relações de amizade. E passa a relacionar as espécies de amizade em que há a superioridade de uma das partes. São os casos de amizade entre pai e filho, pessoas idosas e jovens, marido e mulher e em geral, entre quem manda e quem obedece. São amizades que diferem entre si pois a excelência moral e suas funções, bem como as razões de envolvimento das pessoas são diferentes. Nestas amizades “(...) os benefícios que cada parte recebe e pode pretender da outra não são os mesmos da outra”. (ARISTÓTELES 2001, p. 161) Sendo assim, nestes tipos de amizade o que ocorre é a diferença na proporcionalidade de amor que cada uma das partes recebe e tem para com a outra. Então, se na justiça “(...)o que é igual no sentido primordial é aquilo que é proporcional ao merecimento”; na amizade “(...) a igualdade quantitativa é primordial e a proporcionalidade ao merecimento é secundária”. (ARISTÓTELES 2001, p. 161)
Segundo Aristóteles, isto é mais evidente em casos onde “(...) há um grande desequilíbrio entre as partes em relação à excelência moral ou à deficiência moral ou à riqueza ou à qualquer outra coisa”. (ARISTÓTELES, 2001, p. 161) São exemplos disso os deuses e os reis e as pessoas melhores e sábias.

A maioria das pessoas, por causa de sua ambição, parece que prefere ser amada a amar, e é por isto que a maioria gosta de ser adulada; efetivamente, o adulador é um amigo de qualidade inferior, ou que tem a pretensão de ser amigo e quer estimar mais do que ser estimado; ser estimado é quase a mesma coisa que receber honrarias, e é a estas que a maioria das pessoas aspira. (ARISTÓTELES, 2001, p. 162)

Pelo fato de haver proporcionalidade ao merecimento no caso da amizade ser secundário, já que há relações de amizade em que há superioridade de uma das partes, Aristóteles alerta que por ser comum as pessoas preferirem serem amadas a amarem, ou seja, serem aduladas, atraírem para junto de si amigos de qualidade inferior: o adulador.
Sendo a amizade fundamental para a vida em sociedade, seus desvios podem gerar em contrapartida problemas sociais. Será isso realmente possível?
No Brasil, no século XVII, um dos homens mais notáveis da época, padre Antônio Vieira, em um de seus sermões ilustra o risco apresentado por Aristóteles em relação aos amigos de qualidade inferior.
Antônio Vieira, um dos grandes pregadores, que tinha acesso a corte portuguesa, vivera e pregara no Maranhão grande parte de sua vida. Em suas pregações falava aos nobres e, até mesmo, aos escravos. No conjunto de seus sermões encontra-se inclusive o Sermão à Irmandade dos Pretos de um engenho, 1633, que foi uma pregação para os negros no dia da festa do evangelista São João e o Sermão do Rosário.
No Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma, na Capela Real, no ano de 1651, com o mote: “Mas eu vos digo: Amai a vossos inimigos, fazei o bem aos que vos têm ódio” (Mt 5,44), Vieira discute se os reis estão ou não dispensados de amar seus inimigos. Discute quem seriam de fato os inimigos dos reis e príncipes. Ao fazê-lo apresenta uma distinção entre os inimigos e as hostes. Os inimigos seriam os de dentro do reino e as hostes seriam os estranhos, os de fora, os que fazem guerra ao reino, combatem e são combatidos.
Porém, entendendo as hostes como aqueles que combatem e são combatidos em busca de interesses e conquistas entendidas como legítimas, até mesmo com o uso da violência e da guerra, Vieira alerta que o pior e real inimigo do rei não são as hostes, mas “(...) os domésticos, os familiares, os que são admitidos a ouvir e ser ouvidos, êstes (sic) são os aduladores, e por isso, os inimigos”. (VIEIRA, 1957, p. 360-361)
Por que, segundo Vieira, o adulador é o principal e único inimigo dos reis? Porque “(...) a intenção reta dos príncipes não é esta, senão que cada um diga livremente o que entende, e aconselhem o que mais importa; mas, como o norte sempre fixo do adulador é o interesse e a convivência própria, nenhum há que se fie deste seguro real, e todos temem arriscar a graça onde têm posta a esperança. (VIEIRA, 1957, p. 374)
Mesmo pregando na Capela Real, onde com certeza estava o rei e toda sua corte reunida, já que Vieira era um orador que tinha grande prestígio e público, não mede as palavras e é contundente ao afirmar que: “Tão certa é a proposição do nosso assunto, e tão verdadeira e sólida a razão fundamental dêle (sic), que todos os que em palácio são amigos do interesse, são amigos do rei”. (VIEIRA, 1957, p. 380)
Vieira, assim como Aristóteles orientara, alerta reis e príncipes para o cuidado com suas amizades, uma vez que as mesmas, pelo fato de serem eles, pessoas melhores, segundo Aristóteles, e com mais dignidade e soberania, segundo Vieira, correm o risco de estarem cercados de aduladores que irão ofuscá-los com bajulações e causar-lhes a ruína de si mesmos e do reino.