"A Vida, como a fizeres, estará contigo em qualquer parte." (Autoria desconhecida)

Aristóteles (Parte 09/09)


A VISÃO DA MULHER - (Páginas 132-133.)

Para concluir, precisamos dizer alguma coisa sobre a visão que Aristóteles tinha da mulher. Infelizmente, ela não era tão animadora quanto a de Platão. Fundamentalmente, Aristóteles achava que faltava alguma coisa à mulher. Para ele, a mulher era “um homem incompleto”. Na reprodução, a mulher é passiva e receptora, enquanto o homem é ativo e produtivo. Por esta razão é que – segundo Aristóteles – o filho do casal herdava apenas as características do pai. Aristóteles acreditava que todas as características da criança já estavam presentes no sêmen do pai. Para ele, a mulher era apenas o solo que acolhia e fazia germinar a semente que vinha do “semeador”, ou seja, do homem. Para colocarmos a coisa em termos verdadeiramente aristotélicos: o homem dá a “forma”; a mulher, a “substância”.
É surpreendente e mesmo lamentável que um homem como Aristóteles, tão inteligente para tantos assuntos, pudesse se enganar desse jeito no que se refere à relação entre os sexos. Mas isto nos mostra duas coisas: primeiro, que Aristóteles não deve ter tido muita experiência prática na vida com mulheres e crianças; em segundo lugar, que uma série de coisas pode dar errado quando são apenas os homens que reinam supremos na filosofia e na ciência.
A visão distorcida que Aristóteles tinha da mulher surtiu efeitos particularmente danosos, pois foi ela – e não a visão de Platão – que predominou durante toda a Idade Média. Desta forma, a Igreja herdou uma visão da mulher para a qual não há qualquer fundamento na Bíblia. Afinal de contas, Jesus certamente não foi um inimigo das mulheres!
Vou ficando por aqui. Mas você logo vai ter notícias minhas.

Aristóteles (Parte 08/09)


POLÍTICA - (Página 132.)

A visão de sociedade de Aristóteles também expressa essa necessidade de moderação, esse abandono do exagero. Ele chama o homem de um “ser político”. Aristóteles acha que sem a sociedade ao nosso redor não somos pessoas no verdadeiro sentido do termo. Nesse contexto, a família e a cidade satisfazem nossas necessidades vitais primárias, como a comida e o calor, o casamento e a criação de filhos. Mas a forma mais elevada do convívio humano, para Aristóteles, só pode ser o Estado.
E aqui surge a pergunta de como o Estado deve ser organizado. (Você ainda se lembra do Estado dos filósofos de Platão?) Aristóteles cita diversas boas formas de Estado. Uma delas é a monarquia, ou seja, aquela em que há um único chefe de Estado. Mas para que esta forma de Estado seja boa, ela não pode degenerar em “tirania”, na qual o único soberano comanda e dirige o Estado em proveito próprio. Outra boa forma de Estado é a aristocracia. Aqui, um grupo maior ou menor de soberanos governa o Estado. Esta forma de Estado deve cuidar para não acabar virando o governo de uns poucos, que dirigem o Estado em prol de seus próprios interesses. Seria mais ou menos o que chamaríamos hoje de “oligarquia”. Uma terceira boa forma de Estado é a democracia. Mas também esta forma de Estado tem o seu lado negativo. Uma democracia pode facilmente desvirtuar e se transformar no chamado domínio da plebe. (Ainda que o tirano Hitler não tivesse se tornado o chefe de Estado da Alemanha, uma multidão de pequenos nazistas teria conseguido instituir um terrível “domínio da plebe”.)

Aristóteles (Parte 07/09)


ÉTICA - (Páginas 131-132.)

Vamos voltar ao homem, Sofia. Para Aristóteles, a “forma” do homem se define por ele possuir tanto uma “alma vegetal” quanto uma “alma animal” e uma “alma racional”. E Aristóteles pergunta: como o homem deve viver? Do que o homem precisa para viver uma boa vida?
Posso responder resumidamente: o homem só é feliz se puder desenvolver e utilizar todas as suas capacidades e possibilidades.
Aristóteles acreditava em três formas de felicidade: a primeira forma de felicidade é uma vida de prazeres e satisfações. A segunda forma de felicidade é uma vida como cidadão livre, responsável. E a terceira forma de felicidade é a vida como pesquisador e filósofo.
Aristóteles sublinha o fato de que é preciso integrar essas três formas a fim de que o homem possa levar uma vida realmente feliz. Ele recusa, portanto, toda e qualquer decisão unilateral. Se Aristóteles vivesse hoje, talvez ele dissesse que a vida de uma pessoa que só cultiva o corpo é tão unilateral – e, portanto tão lacunosa – quanto a vida de outra que só usa a cabeça. Ambos os extremos são expressões de um modo errado de viver a vida.
Também no que concerne às virtudes, Aristóteles chama a atenção para um “meio-termo de ouro”. Não devemos ser nem covardes, nem audaciosos, mas corajosos. (Coragem de menos significa covardia e coragem demais significa audácia.) Também não devemos ser nem avarentos, nem extravagantes, mas generosos. (Generosidade de menos é avareza e generosidade demais é extravagância.)
O mesmo vale para a alimentação. Comer de menos é perigoso, mas comer demais também o é. A ética de Platão e de Aristóteles lembra a ciência médica grega: só através do equilíbrio e da moderação é que podemos nos tornar pessoas felizes ou “harmônicas”.

Aristóteles (Parte 06/09)


A ESCADA DA NATUREZA - (Páginas 129-131.)

No seu projeto de “colocar ordem” na vida, Aristóteles chama a atenção primeiramente para o fato de que tudo o que ocorre na natureza pode ser dividido em dois grupos principais. De um lado, temos as coisas inanimadas tais como pedras, gotas de água e torrões de terra. Essas coisas não encerram em si uma potencialidade de transformação. Segundo Aristóteles, elas só podem se transformar sob a ação de agentes externos. De outro lado, temos as criaturas vivas, que possuem dentro de si uma potencialidade de transformação.
Para Aristóteles, a natureza progride paulatinamente das coisas inanimadas para as criaturas vivas. Ao reino das coisas inanimadas segue-se primeiramente o reino das plantas, que, “em relação ao reino das coisas inanimadas, parece quase animado, e em relação ao reino dos animais parece quase inanimado”. Finalmente, Aristóteles divide o reino das criaturas vivas em dois subgrupos, o dos animais e o do homem.
Não podemos deixar de reconhecer que esta divisão, apesar da nítida insegurança em relação às plantas, é clara e simples. Há uma grande diferença entre as coisas vivas e as não vivas. Também entre as plantas e os animais existe uma enorme diferença; por exemplo, entre uma rosa e um cavalo. E também quero dizer que há uma grande diferença entre um cavalo e um homem. Mas onde estão exatamente essas diferenças? Será que você é capaz de me responder?
Infelizmente não tenho tempo de esperar que você escreva a sua resposta e a coloque num envelope cor-de-rosa junto com um torrão de açúcar [P. 75: “No momento seguinte, um enorme cão labrador entrou no esconderijo vindo do lado da floresta. Na boca ele trazia um grande envelope amarelo, que deixou cair aos pés de Sofia. (…) Aquele era o mensageiro! Sofia respirou aliviada. Por isso é que as bordas dos envelopes estavam sempre úmidas. Por isso, também, é que os envelopes tinham aquelas marcas. Marcas de dentes, agora ela sabia. Como ela não tinha pensado nisso antes? Agora sim fazia sentido a orientação que o filósofo lhe dera de colocar no envelope um docinho ou um torrão de açúcar quando quisesse mandar uma carta para ele.”]. Por isso prefiro responder eu mesmo e agora. Quando Aristóteles divide os fenômenos da natureza em diferentes grupos, ele parte das características das coisas; melhor dizendo, daquilo que elas são capazes ou daquilo que elas fazem.
Tudo o que vive (plantas, animais e pessoas) tem a capacidade de se alimentar, crescer e se multiplicar. Os animais e os homens têm, além disso, a capacidade de perceber o mundo que os cerca e de se locomover na natureza. E todas as pessoas têm, somada a tudo isto, a capacidade de pensar – ou melhor, a capacidade de ordenar suas impressões sensoriais em diferentes grupos e classes.
Desta forma, não existem na natureza divisões realmente estanques. Podemos perceber uma transição gradual de vegetais simples para plantas mais complexas, de animais simples para animais mais complexos. Bem no alto desta “escada” está o homem, que, para Aristóteles, vive a plenitude da vida da natureza. O homem cresce e se alimenta como as plantas, tem sentimentos e capacidade de locomoção como os animais, mas possui além de tudo isto uma característica muito especial, que só ele tem: a capacidade de pensar racionalmente.
Por isso, Sofia, o homem possui uma centelha da razão divina. Isso mesmo… eu disse “divina”. Em algumas passagens, Aristóteles explica que deve haver um Deus que colocou em marcha todos os movimentos da natureza. E, assim, Deus passa a assumir o cume absoluto da escada da natureza.
Para Aristóteles, os movimentos das estrelas e dos planetas comandavam os movimentos aqui na Terra. Mas devia haver alguma coisa que fazia os corpos celestes se movimentarem. Esta coisa Aristóteles chamava de o primeiro impulsor, ou Deus. Este primeiro impulsor não se movimenta, mas é a causa primordial de todos os movimentos dos corpos celestes e, por conseqüência, dos movimentos na natureza.

Aristóteles (Parte 05/09)


LÓGICA - (Páginas 127-129.)

A diferença entre “forma” e “substância” também é muito importante quando Aristóteles descreve como o homem reconhece as coisas do mundo.
Quando reconhecemos as coisas, nós as ordenamos em diferentes grupos ou categorias. Por exemplo, vejo um cavalo hoje, outro amanhã e outro depois de amanhã. Os cavalos não são exatamente iguais, mas há alguma coisa que é comum a todos os cavalos. E esta coisa que é comum a todos os cavalos é a “forma” do cavalo. Tudo o que é distintivo ou individual pertence à “substância” do cavalo.
E assim vamos nós pelo mundo, colocando as coisas em gavetas diferentes. Colocamos vacas no curral, cavalos no estábulo, porcos no chiqueiro e galinhas no galinheiro. O mesmo acontece quando Sofia Amundsen limpa o seu quarto. Ela coloca os livros na estante, os cadernos na mochila e as revistas na gaveta da escrivaninha. As roupas são cuidadosamente dobradas: peças íntimas são colocadas numa gaveta, malhas de lã em outra e meias em outra. Veja que fazemos o mesmo nas nossas cabeças: estabelecemos a diferença entre coisas que são feitas de pedra, coisas de algodão e coisas de borracha. Distinguimos coisas vivas de coisas mortas, e “plantas” de “animais” e de “seres humanos”.
Você está acompanhando, Sofia? Aristóteles queria, portanto, arrumar o quarto da jovem natureza. Ele tentou mostrar que todas as coisas na natureza pertenciam a diferentes grupos e subgrupos. (Hermes é um ser vivo. Ou melhor, um animal. Ou melhor, um animal vertebrado. Ou melhor, um mamífero. Ou melhor, um cachorro. Ou melhor, um labrador. Ou melhor, um labrador macho.)
Vá até o seu quarto, Sofia. Pegue qualquer objeto que estiver no chão. Qualquer um, não importa. Você verá que o objeto que você pegou está inserido numa ordem superior. Quando encontramos uma coisa que não conseguimos classificar, levamos um verdadeiro choque. Por exemplo, se você se depara com uma pequena coisa e não sabe dizer ao certo se esta coisa pertence ao reino animal, vegetal ou mineral, acho que você não ousaria tocá-la.
Reino animal, vegetal ou mineral. Foi isto o que eu disse. Estou pensando naquele jogo de salão em que um pobre coitado é mandado para fora da sala enquanto os outros ficam pensando no que o pobre coitado terá de adivinhar quando voltar. Os outros decidem pensar em Mons, o gato do vizinho que nessa hora está no jardim. Então o pobre coitado entra de novo na sala e começa a adivinhar. Os outros só podem responder com “sim” e “não”. Se o pobre coitado for um bom aristotélico – e neste caso não seria um pobre coitado -, o diálogo entre ele e os demais bem que poderia ser este: É concreto? (Sim!) Pertence ao reino mineral? (Não!) É vivo? (Sim!) Pertence ao reino vegetal? (Não!) É um animal? (Sim!) É um pássaro? (Não!) É um mamífero? (Sim!) Isto é tudo sobre o bicho? (Sim!) É um gato? (Sim!) É Mons? (Siiiimm! Risadas…).
Foi Aristóteles, portanto, quem inventou esta brincadeira. A Platão atribuímos a honra de ter inventado o “esconde-esconde”; e a Demócrito, a honra de ter inventado as pedrinhas de Lego.
Aristóteles foi um organizador, um homem extremamente meticuloso, que queria pôr ordem nos conceitos dos homens. De fato, ele também fundou a ciência da lógica, e estabeleceu uma série de normas rígidas para que conclusões ou provas pudessem ser consideradas logicamente válidas. Vamos ver um exemplo: se constato primeiramente que “todas as criaturas vivas são mortais” (primeira premissa), e depois constato que “Hermes é uma criatura viva” (segunda premissa), então posso tirar a elegante conclusão de que “Hermes é mortal”.
O exemplo nos mostra que a lógica de Aristóteles trata da relação entre conceitos; neste caso, “criatura viva” e “mortal”. Mesmo que tenhamos que concordar com Aristóteles em que a conclusão tirada é cem por cento correta, temos de admitir que ele não nos diz nada de novo. Afinal de contas, nós já sabíamos que Hermes é “mortal”. (Ele é um cachorro, e todos os cachorros são “criaturas vivas” e, portanto, “mortais” por oposição às pedras da montanha.) Sim, Sofia, já sabíamos disso. Mas nem sempre a relação entre grupos ou coisas nos parece tão evidente. De vez em quando pode ser necessário pôr certa ordem em nossos conceitos.
Vou citar apenas um exemplo: será que realmente é verdade que um filhotinho de rato, minúsculo, pode mamar tal como um carneiro ou um porco? Isto parece muito estranho, mas vamos raciocinar um pouco: ratos não botam ovos (onde é que já se viu um ovo de rato?). Isto significa que seus filhotes são criaturas que já nascem vivas, exatamente como os porcos e os carneiros. Chamamos de mamíferos os animais que dão à luz filhotes vivos, e os mamíferos são animais que mamam o leite de suas mães. Chegamos, assim, aonde queríamos. A resposta já estava dentro de nós, só que precisávamos primeiro pensar um pouco. Na pressa tínhamos nos esquecido de que os ratos realmente mamam o leite de suas mães. Talvez isto se deva ao fato de nós nunca termos visto um ratinho mamando. E isto, por sua vez, se explica pelo fato de que os ratos têm um pouco de vergonha dos homens quando estão amamentando seus filhotes.

Aristóteles (Parte 04/09)


A CAUSA FINAL, OU DA FINALIDADE - (Páginas 126-127.)

Antes de deixarmos de lado o fato de que todas as coisas vivas e mortas têm uma forma que diz alguma coisa sobre as possibilidades dessas coisas, devo acrescentar ainda que Aristóteles tinha uma notável visão das relações de causa e efeito na natureza.
No nosso dia-a-dia, quando falamos das “causas” disso ou daquilo, referimo-nos a como as coisas acontecem. A vidraça se quebra, porque Peter atirou uma pedra. Um sapato passa a existir porque um sapateiro costurou alguns pedaços de couro. Mas Aristóteles acreditava que na natureza havia diferentes tipos de causas. É importante saber, sobretudo, o que ele entendia por aquilo que chamou de causa da finalidade.
No caso da janela quebrada, também seria pertinente perguntar por que Peter atirou a pedra. Estamos perguntando, portanto, que intenção ele tinha, que objetivo ele perseguia. Também não há dúvida de que a intenção ou a finalidade desempenham um papel importante no caso da manufatura do sapato. Mas Aristóteles também partia de uma tal causa da finalidade para explicar alguns processos vivos da natureza. Vamos citar apenas um exemplo.
Por que chove, Sofia? Na certa você aprendeu na escola que chove porque o vapor d’água esfria nas nuvens e condensa na forma de gotas de chuva que, por causa da força da gravidade, caem no chão. Aristóteles também teria acenado com a cabeça em sinal de concordância. Mas ele teria acrescentado que, até agora, você só citou três causas. A “causa substancial” ou causa material, que é o fato de o vapor d’água em questão (as nuvens) estar ali bem na hora em que o ar esfriou; a “causa atuante” ou causa eficiente, que é o fato de o vapor d’água esfriar, e a causa formal, que é o fato de ser inerente à “forma” ou à natureza da água cair no chão. Se você não tivesse dito mais nada, Aristóteles teria acrescentado que chove porque as plantas e os animais precisam da água da chuva para crescer. É isto que ele chama de a causa final, ou da finalidade. Como você pode ver, de repente Aristóteles atribuiu às gotas de chuva uma espécie de tarefa vital, um “propósito”.
Nós provavelmente inverteríamos as coisas e diríamos que as plantas crescem porque há umidade. Você está vendo a diferença, Sofia? Aristóteles acreditava que por trás de tudo na natureza havia um propósito, uma finalidade. Chove para que as plantas cresçam e as laranjas e as uvas possam crescer e servir de alimento aos homens.
Hoje em dia a ciência não pensa mais assim. Dizemos que os alimentos e a água são condições para que homens e animais possam existir. Sem essas condições nós não existiríamos. Mas não é intenção das laranjas ou da água nos alimentar.
No que se refere à sua teoria das causas, podemos nos sentir tentados a afirmar que Aristóteles se enganou. Mas não vamos nos apressar demais. Muitas pessoas acreditam que Deus criou o mundo para que homens e animais possam nele viver. Deste ponto de vista, podemos naturalmente afirmar que a água corre nos rios porque homens e animais precisam de água para viver. Só que neste caso estamos falando do propósito ou da intenção de Deus. Não que as gotas de chuva ou a água dos rios gostem de nós e queiram nos proteger.

Aristóteles (Parte 03/09)

Papiro

AS FORMAS SÃO AS CARACTERÍSTICAS DAS COISAS - (Páginas 124-125.)

Após ter marcado bem a sua posição em relação à teoria das idéias de Platão, Aristóteles constatou que a realidade consiste em várias coisas isoladas, que representam uma unidade de forma e substância. A “substância” é o material de que a coisa se compõe, ao passo que a “forma” são as características peculiares da coisa.
Uma galinha bate as asas na sua frente, Sofia. A “forma” da galinha é precisamente o bater de asas, o cacarejar e a postura de ovos. Assim, a “forma” da galinha são as características próprias da espécie. Em outras palavras, a “forma” da galinha é aquilo que ela faz. Quando a galinha morre – e, portanto, pára de cacarejar -, a “forma” da galinha também deixa de existir. A única coisa que resta é a “substância” da galinha (que triste, não, Sofia?). Mas aquilo não é mais uma galinha.
Como já disse, Aristóteles se interessava pelas mudanças da natureza. A substância sempre encerra a possibilidade de vir a adquirir determinada forma. Podemos dizer que a substância se esforça por concretizar uma possibilidade que lhe é inerente. Assim, para Aristóteles, toda mudança observada na natureza é uma transformação, ocorrida na substância, de uma possibilidade para uma realidade.
Sim, sim, Sofia… vou explicar melhor. E vou tentar fazê-lo contando a você uma história engraçada. Era uma vez um escultor que vivia debruçado sobre um grande bloco de granito. Todos os dias ele dava umas batidinhas naquela pedra amorfa. Um dia, um jovem veio visitá-lo. – O que você está procurando? – perguntou o jovem. – Espere e verá – respondeu o escultor. Depois de alguns dias o jovem voltou e o escultor tinha “tirado da pedra” um belo cavalo. Surpreso, o jovem ficou um longo tempo parado diante do cavalo, até que perguntou ao escultor: - Como é que você sabia que ele estava lá dentro?
Sim, como é que ele sabia? De certa forma, o escultor tinha visto a forma do cavalo no bloco de granito, pois precisamente este bloco de granito encerrava a possibilidade de se transformar num cavalo. Aristóteles achava que todas as coisas da natureza encerram a possibilidade de concretizar determinada forma.
Vamos voltar ao ovo e à galinha. Um ovo de galinha encerra a possibilidade de se transformar numa galinha. Isto não significa que todos os ovos de galinha chegam a se transformar em galinhas; afinal, muitos deles acabam na mesa do café da manhã como ovos fritos, mexidos ou como omelete, sem que a forma inerente ao ovo chegue a se concretizar. Do mesmo modo, porém, também é claro que um ovo de galinha jamais irá se transformar num ganso. Esta possibilidade não é inerente ao ovo de galinha. A forma de uma coisa, portanto, diz tanto sobre as suas possibilidades quanto sobre suas limitações.
Quando Aristóteles fala de “forma” e “substância”, ele não está pensando apenas em organismos vivos. Assim como a “forma” de uma galinha é cacarejar, bater as asas e pôr ovos, a “forma” de uma pedra é voltar ao chão quando atirada para o alto. Assim como a galinha não pode deixar de cacarejar, também a pedra não consegue deixar de cair no chão. É claro que você pode apanhar uma pedra e jogá-la bem para o alto, mas como é da natureza da pedra voltar a cair no chão, você não vai conseguir jogá-la na Lua. (Tome cuidado ao fazer este experimento, pois a pedra pode se vingar. Ela pode querer voltar para a Terra o mais rapidamente possível, e pobre daquele que estiver no seu caminho!).

Aristóteles (Parte 02/09)


AS IDÉIAS NÃO SÃO INATAS - (Páginas 122-124.)

Assim como os filósofos que o antecederam, Platão também queria encontrar algo de eterno e de imutável em meio a todas as mudanças. Foi assim que ele chegou às idéias perfeitas, que estão acima do mundo sensorial. Além disso, Platão considerava essas idéias mais reais do que os próprios fenômenos da natureza. Primeiro vinha a idéia “cavalo” e depois todos os cavalos do mundo dos sentidos, trotando como sombras projetadas sobre a parede de uma caverna. A idéia “galinha” vinha, portanto, antes da galinha e do ovo.
Aristóteles achava que Platão tinha virado tudo de cabeça para baixo. Ele concordava com seu mestre em que o exemplar isolado do cavalo “flui”, passa, e que nenhum cavalo vive para sempre. Ele também concordava que, em si, a forma do cavalo era eterna e imutável. Mas a “idéia” cavalo não passava para ele de um conceito criado pelos homens e para os homens, depois de eles terem visto um certo número de cavalos. A “idéia” ou a “forma” cavalo não existia, portanto, antes da experiência vivida. Para Aristóteles, a “forma” cavalo consiste nas características do cavalo, ou seja, naquilo que chamaríamos de espécie.
Vou explicar melhor: Aristóteles entendia por “forma” aquilo que todos os cavalos têm em comum. E aqui a imagem da fôrma de fazer broas perde a sua validade, pois as fôrmas de fazer broas existem independentemente de cada broa em particular. Aristóteles não acreditava que houvesse na natureza um armário, por assim dizer, com fôrmas desse tipo. Para ele, as “formas” estavam dentro das próprias coisas; as “formas” das coisas eram suas características próprias.
Aristóteles também não concordava com Platão no que se refere ao fato de a “idéia” galinha vir antes da galinha propriamente dita. Aquilo que Aristóteles chama de a “forma” galinha está em todas as galinhas e são as características que distinguem as galinhas. Por exemplo, o fato de elas botarem ovos. Assim, a galinha em si e a “forma” galinha são duas coisas tão inseparáveis quanto o corpo e a alma.
Com isto resumimos a essência das críticas de Aristóteles à teoria das idéias de Platão. Mas você deve atentar bem para o fato de estarmos falando de uma dramática mudança de pensamento. Para Platão, o grau máximo de realidade está em pensarmos com a razão. Para Aristóteles, ao contrário, era evidente que o grau máximo de realidade está em percebermos ou sentirmos com os sentidos. Platão considera tudo o que vemos ao nosso redor na natureza meros reflexos de algo que existe no mundo das idéias e, por conseguinte, também na alma humana. Aristóteles achava exatamente o contrário: o que existe na alma humana nada mais é do que reflexos dos objetos da natureza. Para Aristóteles, Platão foi prisioneiro de uma visão mítica do mundo, que confundia as idéias dos homens com a realidade do mundo.
Aristóteles nos chama a atenção para o fato de que não existe nada na consciência que já não tenha sido experimentado antes pelos sentidos. Platão poderia ter dito que não existe nada na natureza que não tivesse existido antes no mundo das idéias. Aristóteles achava que, desta forma, Platão estava duplicando o número de coisas. Ele tinha explicado o exemplar isolado do cavalo fazendo referência à “idéia” cavalo. Mas que tipo de explicação é esta, Sofia? Quero dizer, de onde saiu a “idéia cavalo”? Será que, nessa linha de raciocínio, não poderia existir ainda um terceiro cavalo, de que a “idéia” cavalo não fosse senão uma imitação?
Aristóteles achava que todas as nossas idéias e pensamentos tinham entrado em nossa consciência através do que víamos e ouvíamos. Mas nós também temos uma razão inata. Temos uma capacidade inata de ordenar em diferentes grupos e classes todas as nossas impressões sensoriais. É assim que surgem conceitos como os de “pedra”, “planta”, “animal” e “homem”. É assim que surgem os conceitos de “cavalo”, “lagosta” e “canarinho”.
Aristóteles não negava que o homem tivesse uma razão inata. Muito pelo contrário: para ele, a razão era precisamente a característica mais importante do homem. Só que nossa razão permanece “vazia” enquanto não percebemos nada. Uma pessoa, portanto, não possui “idéias” inatas.

Aristóteles (Parte 01/09)


FILÓSOFO E CIENTISTA - (Páginas 121-122.)

Querida Sofia! Certamente você ficou impressionada com a teoria das idéias, de Platão. E você não é a primeira. Não sei se você aceitou tudo sem maiores problemas, ou se tem algum comentário crítico a fazer. Mas se você fez críticas à teoria de Platão, saiba que estas mesmas críticas já foram feitas por Aristóteles (384-322 a.C.). Durante vinte anos ele foi aluno da Academia de Platão.
Aristóteles não nasceu em Atenas. Ele era natural da Macedônia e veio para a Academia quando Platão tinha sessenta e um anos. Seu pai era um médico de renome; um cientista da natureza, portanto. Este pano de fundo já diz alguma coisa sobre o projeto filosófico de Aristóteles. Seu maior interesse estava justamente na natureza viva. Ele não foi apenas o último grande filósofo grego; foi também o primeiro grande biólogo da Europa.
Exagerando um pouco, podemos dizer que Platão estava tão mergulhado nas formas eternas, no mundo das “idéias”, que quase não registrou as mudanças da natureza. Aristóteles, ao contrário, interessava-se justamente pelas mudanças, por aquilo que hoje chamamos de processos naturais.
Exagerando mais ainda, podemos dizer que Platão se apartou do mundo dos sentidos e que só percebia muito superficialmente tudo aquilo que vemos ao nosso redor. (É que ele queria escapar da caverna para espiar o eterno mundo das idéias!) Aristóteles fez exatamente o contrário: ele saiu ao encontro da natureza e estudou peixes e rãs, anêmonas e papoulas.
Você bem poderia dizer que enquanto Platão usou apenas sua razão, Aristóteles – ao contrário – usou também seus sentidos.
Mas há nítidas diferenças entre eles, até mesmo na forma de escrever. Enquanto Platão era poeta e criador de mitos, os escritos de Aristóteles são sóbrios e pormenorizados como os verbetes de uma enciclopédia. Em compensação, muito do que ele escreveu estava baseado em estudos naturais realizados com extrema diligência.
Registros da Antigüidade dão conta de não menos que cento e setenta títulos assinados por Aristóteles. Destes, quarenta e sete chegaram até nossos dias. Não se tratava de livros completos. A maior parte dos escritos de Aristóteles compõe-se de apontamentos feitos para suas aulas. Também na época de Aristóteles, a filosofia era essencialmente uma atividade oral.
A importância de Aristóteles para a cultura européia está também no fato de ele ter criado uma linguagem técnica usada ainda hoje pelas mais diversas ciências. Ele foi o grande sistematizador, o homem que fundou e ordenou as várias ciências.
Como Aristóteles escreveu sobre todas as ciências, vou me limitar a tratar aqui sobre algumas das áreas mais importantes.
E como me detive tanto em Platão, quero falar a você primeiramente sobre os argumentos de Aristóteles contra a teoria das idéias de Platão. Na seqüência, veremos como ele formulou sua própria filosofia natural. Afinal, Aristóteles resumiu o que os filósofos naturais haviam dito antes dele. Veremos também como ele tenta colocar em ordem nossos conceitos e funda a lógica como ciência. Por fim, vou falar um pouco sobre a visão que Aristóteles tinha do homem e da sociedade.
Se você aceita este roteiro, então só nos resta arregaçar as mangas e começar.

Extratos da obra de GAARDER, Jostein.
O Mundo de Sofia. Romance da História da Filosofia.
São Paulo: Cia das Letras, 1996.

Delírios de Consumo de Becky Bloom - 104 min.


Nova York. Rebecca Bloomwood (Isla Fisher) é uma garota que adora fazer compras. Seu grande sonho é um dia trabalhar em sua revista de moda preferida, mas ela no máximo consegue chegar na porta do local. Até que um dia ela consegue emprego como colunista em uma revista de finanças publicada pela mesma editora. Quando enfim seu sonho está prestes a ser realizado, ela faz de tudo para que seu passado não venha à tona.

2001: Uma Odisséia no Espaço - 141 min.


Desde a "Aurora do Homem" (a pré-história), um misterioso monolito negro parece emitir sinais de outra civilização interferindo no nosso planeta. Quatro milhões de anos depois, no século XXI, uma equipe de astronautas liderados pelo experiente David Bowman (Keir Dullea) e Frank Poole (Gary Lockwood) é enviada à Júpiter para investigar o enigmático monolito na nave Discovery, totalmente controlada pelo computador HAL 9000. Entretanto, no meio da viagem HAL entra em pane e tenta assumir o controle da nave, eliminando um a um os tripulantes.

1492: A Conquista do Paraíso - 155 min.


Vinte anos da vida de Colombo, desde quando se convenceu de que o mundo era redondo, passando pelo empenho em conseguir apoio financeiro da Coroa Espanhola para sua expedição, o descobrimento em si da América, o desastroso comportamento que os europeus tiveram com os habitantes do Novo Mundo e a luta de Colombo para colonizar um continente que ele descobriu por acaso, além de sua decadência na velhice.

300 - 117 min.


O rei Leônidas (Gerard Butler) e seus 300 guerreiros de Esparta lutam até a morte contra o numeroso exército do rei Xerxes (Rodrigo Santoro). O sacrifício e a dedicação destes homens uniu a Grécia no combate contra o inimigo persa.

Salvador Dali - Faust - Hen Women

Salvador Dali - Faust - Golden Veal

Salvador Dali - Don Juan - The Nude

O Rio Amarelo e as origens da civilização chinesa (Parte 05/05)


As primeiras dinastias

Diferentes linhagens de reis e imperadores governaram a China. Costuma-se dividir a história da China Antiga nos períodos em que cada uma dessas linhagens ou dinastias governou o país. Por sua vez, podemos dividir esses períodos em duas épocas: Época da três dinastias régias e Época Imperial, que durou de 221 a.C. ao ano 1911 da nossa Era.
Por razões de espaço e para não fugir do tema China antiga, trataremos a seguir apenas das cinco primeiras dinastias.

O Rio Amarelo e as origens da civilização chinesa (Parte 04/05)

Planície do Rio Yang-Tsé-Kiang

Dificuldades geográficas

Na China Antiga, os grupos que viviam na parte oeste tiveram um desenvolvimento bem diferente daquele dos grupos que viviam próximos das margens do rios Huang-Ho e Yang-Tsé-Kiang. Em parte, isso pode ser explicado pelo fato de que os grupos que viviam no oeste encontraram condições geográficas mais adversas e tiveram que encontrar outras soluções para sobreviverem.
Quanto mais ao oeste da China nos dirigimos, menos chuvas ocorrem. Por isso, secas severas são comuns no oeste do país, que é uma região montanhosa, coberta por estepes e desertos. Isso dificultava as viagens e travessias, tornando-as mais árduas e perigosas.
Enquanto as condições geográficas no leste favoreceram o surgimento de grupos sedentários que se dedicavam ao cultivo do arroz e de outros cereais, as condições geográficas no oeste favoreceram o surgimento de grupos nômades.

O Rio Amarelo e as origens da civilização chinesa (Parte 03/05)

Foto do Rio Amarelo vista por satélite

Às margens do rio Amarelo

Durante muito tempo, acreditou-se que as margens do rio Huang-Ho foram o berço de toda a civilização chinesa. Escavações arqueológicas mais recentes levaram os historiadores a concluírem que as margens do rio Huang-Ho foram apenas um dos centros de difusão de uma das várias culturas que originou a civilização chinesa.
Em 1986, foram encontrados no sudoeste da China, na vila de Sanxingdui, objetos de bronze da mesma época da Dinastia Shang (aproximadamente 1500-1050 a.C.), mas com um estilo muito diferente do de objetos da mesma época encontrados no leste do país. Esses e outros achados são exemplos de que o processo de povoamento e o desenvolvimento cultural da China antiga foram muito mais complexos do que se imaginava.
A ênfase exagerada no estudo das populações que viviam próximas ao rio Huang-Ho, fez com que os arqueólogos não dessem a a devida atenção ao estudo das populações que viviam em outras regiões da China. Atualmente, esse erro está sendo corrigido. Exemplo disso é a atenção que vem sendo dada ao estudo da culturas que se desenvolveram no vale do rio Yang-Tsé-Kiang, que também era muito fértil.
No passado, esse vale era coberto por densas florestas. O vale do Yang-Tsé-Kiang era um dos vários importantes centros culturais da China Antiga. Alguns historiadores chineses chegam até a afirmar que a cultura surgida no vale do Yang-Tsé-Kiang chegava a ser tecnicamente superior à surgida nas margens do rio Huang-Ho.

O Rio Amarelo e as origens da civilização chinesa (Parte 02/05)

Crânio do Homem de Pequim, um dos mais antigos fosséis de hominídeos

Homem de Pequim

A China atual é um país continental, ou seja, seu território é muito grande. A presença de grupos humanos no território que hoje é a China é bastante remota. Só para se ter uma idéia, foi lá que foram achados os vestígios fósseis do chamado Homem de Pequim, cujo nome científico é Homo erectus pekinensis, um dos mais antigos hominídeos (a família a qual pertence a nossa espécie). Esse nosso provável antepassado viveu há mais de 400 mil anos, andava ereto e é possível que já soubesse utilizar o fogo.
Na parte leste do território que veio a se tornar a nação chinesa, é onde se encontra a chamada Grande Planície de China. Dois rios que nascem nas montanhas, correm por ela: o Huang-Ho (também chamado de rio Amarelo) e o Yang-Tsé-Kiang. Semelhante ao que ocorreu no Egito em relação ao rio Nilo, o rio Huang-Ho favoreceu o desenvolvimento da agricultura e o surgimento de cidades na região.
Esse rio se torna muito raso e arenoso durante as secas. Após as chuvas, ele se enche e cobre as planícies por dezenas e mesmo centenas de quilômetros. Quando isso acontecia, os camponeses aproveitavam para irrigar as terras. Além disso, uma espécie de poeira fina e amarela, trazida de longe pelo vento, ajudava a fertilizar as terras.

O Rio Amarelo e as origens da civilização chinesa (Parte 01/05)

Artefato em couro contendo inscrições dos primeiros sistemas de escrita da China.



A civilização chinesa é uma das mais antigas conhecidas, quase tão antiga quanto as que existiram no Egito e na Mesopotâmia. O Império chinês já existia muitos séculos antes de Roma se tornar uma das maiores potências do mundo antigo e continuou existindo séculos após a queda do Império romano.
Assim como a cultura grega serviu de modelo e inspiração para diversos povos do Ocidente, a cultura chinesa influenciou o desenvolvimento cultural de diversos países vizinhos, dentre os quais, o Japão e a Coréia. Os chineses também foram responsáveis pela descoberta da pólvora e pelas invenções do papel e da bússola.
Não bastasse tudo isso, a cultura chinesa sobrevive em nossos dias e, segundo muitos analistas econômicos, a China deverá se tornar em décadas futuras a maior economia do mundo, posição atualmente ocupada pelos Estados Unidos. Que tal conhecer um pouco mais a respeito do passado dessa civilização fascinante?

Texto produzido por Túlio Vilela. Portal UOL Educação.

Buenos Aires foi fundada em 1580 e tinha população inicial de 100 pessoas.

Praça do Congresso argentino - Buenos Aires

Buenos Aires foi fundada em 1580 por Juan de Garay, na margem ocidental do Rio da Prata. A população inicial era de 100 pessoas - 60 marinheiros espanhóis e 40 mulheres e crianças guaranis, trazidas do Paraguai. Oitenta anos depois, a população crescera para três mil almas. No início do século 20, Buenos Aires estava entre as 10 capitais mais importantes do mundo.

Arquipélago de Fernando de Noronha, descoberto em 1503, foi a primeira capitania hereditária no Brasil.


Fernando de Noronha é tanto nome do arquipélago como da principal ilha, entre as 20 que o constituem. Descoberto por Gonçalo Coelho em 1503, o arquipélago foi doado ao comerciante de pau-brasil Fernão de Noronha, como a capitania hereditária de São João, a primeira a ser criada no Brasil. Foi possessão holandesa de 1635 a 1654, e francesa, em 1737, retornando então aos portugueses.

Produção de artefatos de pedra é a atividade industrial mais antiga da história.


O que se pode chamar de atividade industrial mais antiga da história humana diz respeito à produção de talhadeiras e machados de pedra. Na Etiópia foram encontrados exemplares fabricados seguramente há mais de 2 milhões e 500 mil anos. Mas o comércio de artefatos de pedra é mais recente. Estima-se em 28 mil anos a idade dos indícios da compra e venda de âmbar na Europa.

Da esquadra de treze caravelas que descobriu o Brasil, sabe-se o nome de apenas três.


Sabe-se apenas o nome de três das 13 caravelas que compunham a esquadra portuguesa que descobriu o Brasil: São Pedro, comandada por Pero de Ataíde, El-Rei comandada por Sancho de Tovar e (Anunciada), comandada por Nuno Leitão. Das demais, sabe-se quem as comandou mas não o nome que tinham.

América Latina: Conflitos no Século XX – Resumo (Parte 05/05)

Augusto César Sandino

Revolução Sandinista na Nicarágua

Na década de 30, a família Somoza passou a controlar o poder na Nicarágua, apoiada pelos conservadores e pelo governo dos Estados Unidos. Esse domínio durou 45 anos. Em 1936, Anastácio Somoza assumiu a presidência de forma ditatorial, apropriando-se de grande parte das riquezas do país. Em 1956, foi assassinado e seu filho, Anastácio Somoza Debayle, assumiu o poder.
Nos anos 60, a economia nicaragüense cresceu, mas as diferenças sociais acentuaram-se.
A oposição ao governo de Somoza aumentou. Grupos guerrilheiros, estudantes e intelectuais, alguns padres e elementos da burguesia passaram a exigir a redemocratização do pais. Essa situação favoreceu a Frente Sandinista de Libertação Nacional, uma organização guerrilheira fundada em 1961 por intelectuais marxistas.
Em 1972, um terremoto devastou a Nicarágua, causando a morte de 10 mil pessoas. A ajuda externa às vítimas foi parar nas mãos do ditador e de sua família. Esse fato provocou indignação geral. O governo perdeu o apoio até dos Estados Unidos, que passaram a exigir a abertura política.
Somoza resistia, mas o assassinato do jornalista Pedro Chamorro, proprietário de um jornal que se opunha ao governo, desencadeou a revolução. Os sandinistas ocuparam o palácio de Manágua, derrubando o governo de Somoza em 1979.
Com a realização das eleições, venceu Daniel Ortega, líder da Frente Sandinista. Ele deu início à reforma agrária, criou um exército popular, elaborou um programa de alfabetização em massa e melhorou a saúde.
Em 1990, Daniel Ortega convocou eleições, e a empresária oposicionista Violeta Chamorro saiu vitoriosa.

América Latina: Conflitos no Século XX – Resumo (Parte 04/05)

Salvador Allende

O governo socialista do Chile

Em 1970, o socialista Salvador Allende venceu as eleições para presidente. Contou com o apoio dos comunistas, socialistas e democratas. Deu inicio ao seu programa de reformas, a fim de tornar o Chile um país socialista.
Os Estados Unidos bloquearam o crédito ao Chile e apoiaram a reação contra o governo de Allende. Os industriais retiraram o dinheiro do pais e os comerciantes provocaram a escassez de produtos no mercado.
Ocorreram vários protestos e greves e a imprensa desencadeou uma campanha de desmoralização do governo Allende. Em 11 de setembro de 1973, com o apoio dos Estados Unidos, as Forças Armadas chilenas, lideradas pelo general Augusto Pinochet, organizaram um movimento para derrubar o presidente. Bombardearam o Palácio La Moneda, e Allende foi morto.
O país começou a viver um período conturbado, com grande repressão. O novo governo foi formado por uma junta militar chefiada por Pinochet. Foram devolvidas as empresas nacionalizadas e houve a permissão de entrada do capital estrangeiro.
Em 1988, pressionado pelas forças democráticas, Pinochet realizou um plebiscito para decidir sobre o seu direito de concorrer ao cargo de presidente na eleição seguinte. O “não” venceu, e a derrota de Pinochet foi festejada nas ruas. Os exilados chilenos começaram a voltar ao seu pais. A oposição uniu-se em torno de um candidato único, Patrício Aylwin, que foi eleito em 1989. Mas Pinochet não abandonou o comando das Forças Armadas.

América Latina: Conflitos no Século XX – Resumo (Parte 03/05)

Ernesto Che Guevara e Fidel Castro, 1959

Revolução Cubana

Na primeira metade do século XX, Cuba enfrentou governos ditatoriais e sua economia era totalmente controlada pelos Estados Unidos.
Fulgêncio Batista, em 1952, deu um golpe de Estado, assumindo o poder como ditador. Em seu governo, dominou a corrupção. Em julho do ano seguinte, liderada pelo jovem advogado Fidel Castro, estourou uma rebelião nacionalista com maciça participação de estudantes universitários. Os revoltosos tentaram tomar o quartel de Moncada, na cidade de Santiago. O movimento foi sufocado. Muitos participantes morreram e outros foram presos. Em 1955, Batista anistiou os rebeldes que estavam presos e eles se refugiaram no México. Nesse pais, os cubanos, liderados por Fidel Castro e com a adesão do médico argentino Ernesto Che Guevara, prepararam uma revolução.
Ao entrarem em Cuba, os revolucionários foram descobertos pelas tropas do governo. A maioria morreu e os 12 sobreviventes refugiaram-se nas montanhas de Sierra Maestra. Foram ganhando a adesão da população pobre e organizando as guerrilhas, que faziam ataques relâmpago contra as forças do governo. No dia 26 de julho de 1959, os guerrilheiros entraram na capital, Havana, e derrubaram o governo de Fulgêncio Batista.
Quando Fidel Castro assumiu a chefia do governo, fez a reforma agrária, reduziu os aluguéis, fechou as casas de jogos e de prostituição, melhorou o ensino, investiu em saúde e estatizou empresas estrangeiras.
Os Estados Unidos deixaram de comprar o açúcar cubano, que era a maior fonte de divisas do pais, e também interromperam a venda de produtos essenciais, como alimentos, remédios e petróleo.
Em 1961, o presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, rompeu relações diplomáticas com Cuba e apoiou uma tentativa frustrada de derrubar Fidel Castro. Em seu discurso, após a vitória, Fidel declarou Cuba socialista. Foi o primeiro pais americano a adotar esse regime de governo. No ano seguinte, por pressão do governo norte-americano, o país foi expulso da OEA.
Cuba aproximou-se da União Soviética, que passou a comprar o açúcar cubano, a fornecer petróleo e ajuda econômica. A tensão da Guerra Fria aumentou quando a União Soviética começou a instalar mísseis em Cuba e os Estados Unidos ameaçaram usar a sua força nuclear para impedir. Os soviéticos recuaram e o governo norte-americano comprometeu-se a não invadir a ilha.
Para apoiar movimentos de esquerda em outros países, em 1967 Fidel Castro criou a Olas, Organização latino-americana de solidariedade, com sede em Havana. Guevara ajudou a organizar a guerrilha na Bolívia, onde foi morto.
Em 1991, a queda do socialismo no Leste europeu e a desintegração da União Soviética fizeram com que o governo de Fidel Castra ficasse sem apoio econômico, e o pais passou a enfrentar uma grande crise.

América Latina: Conflitos no Século XX – Resumo (Parte 02/05)

Pancho Villa e Emiliano Zapata

Revolução Mexicana

O México viveu uma longa ditadura com Porfírio Diaz, iniciada em 1876 e que se prolongou até 1911.
Em 1910, estourou uma revolução liderada por Francisco Madero, grande proprietário de terras, que conclamou o povo a lutar contra o regime ditatorial. Os camponeses, liderados por Emiliano Zapata e Pancho Villa, aderiram ao movimento, e Porfirio Diaz foi deposto e expulso do país.
Madero conseguiu eleger-se presidente da República, mas sofreu forte oposição dos latifundiários, das forças conservadoras do exército e da Igreja, todos apoiados pelos Estados Unidos. Os camponeses revoltaram-se porque o novo presidente era contrário à reforma agrária. Madero acabou sendo assassinado, e a revolução civil recomeçou. O governo norte-americano enviou tropas para combater Zapata e VilIa.
Em 1917, foi promulgada nova Constituição, segundo a qual a influência da Igreja ficou limitada e o governo tinha o poder de confiscar terras para fazer a reforma agrária. Apesar disso, os camponeses continuaram lutando para conseguir suas terras de volta. Zapata e VilIa foram assassinados, e a guerra civil chegou ao fim.

América Latina: Conflitos no Século XX – Resumo (Parte 01/05)


Durante a Primeira Guerra Mundial, como as nações fornecedoras de produtos industrializados estavam envolvidas no conflito, alguns países latino-americanos desenvolveram suas indústrias. Na década de 50, Brasil, Argentina, Chile e México aceleraram o processo de industrialização. O capital estrangeiro, principalmente norte-americano, tornou-se imprescindível para o desenvolvimento, mas aumentou a divida externa, criando maior dependência em relação aos credores.
No período da Guerra Fria, muitas empresas norte-americanas estabeleceram-se em países da América Latina. Para evitar a expansão do socialismo no continente, os Estados Unidos fortaleceram sua ligação com os governos latino-americanos por meio de organizações de cooperação mútua.
Em 1948, foi criada a OEA, Organização dos Estados Americanos, cujo objetivo era impedir a influência soviética no continente. Porém, a situação de pobreza em que o povo vivia, principalmente no campo, favoreceu a expansão da ideologia socialista. Formaram-se partidos de esquerda que foram combatidos com violência.

Fonte: Caderno do Futuro. IBEP.

Platão (Parte 05/05)


DEIXANDO PARA TRÁS AS TREVAS DA CAVERNA

Platão nos conta uma parábola que ilustra bem esta reflexão. Nós a conhecemos por alegoria da caverna. Vou contá-la com minhas próprias palavras.
Imagine um grupo de pessoas que habitam o interior de uma caverna subterrânea. Elas estão de costas para a entrada da caverna e acorrentadas no pescoço e nos pés, de sorte que tudo o que vêem é a parede da caverna. Atrás delas ergue-se um muro alto e por trás desse muro passam figuras de formas humanas sustentando outras figuras que se elevam para além da borda do muro. Como há uma fogueira queimando atrás dessas figuras, elas projetam sombras bruxuleantes na parede da caverna. Assim, a única coisa que as pessoas da caverna podem ver é este “teatro de sombras”. E como essas pessoas estão ali desde que nasceram, elas acham que as sombras que vêem são a única coisa que existe.
Imagine agora que um desses habitantes da caverna consiga se libertar daquela prisão. Primeiramente ele se pergunta de onde vêm aquelas sombras projetadas na parede da caverna. Depois consegue se libertar dos grilhões que o prendem. O que você acha que acontece quando ele se vira para as figuras que se elevam para além da borda do muro? Primeiro, a luz é tão intensa que ele não consegue enxergar nada. Depois, a precisão dos contornos das figuras, de que ele até então só vira as sombras, ofusca a sua visão. Se ele conseguir escalar o muro e passar pelo fogo para poder sair da caverna, terá mais dificuldade ainda para enxergar devido à abundância de luz. Mas depois de esfregar os olhos, ele verá como tudo é bonito. Pela primeira vez verá cores e contornos precisos; verá animais e flores de verdade, de que as figuras na parede da caverna não passavam de imitações baratas. Suponhamos, então, que ele comece a se perguntar de onde vêm os animais e as flores. Ele vê o Sol brilhando no céu e entende que o Sol dá vida às flores e aos animais da natureza, assim como também era graças ao fogo da caverna que ele podia ver as sombras refletidas na parede.
Agora, o feliz habitante das cavernas pode andar livremente pela natureza, desfrutando da liberdade que acabara de conquistar. Mas as outras pessoas que ainda continuam lá dentro da caverna não lhe saem da cabeça. E por isso ele decide voltar. Assim que chega lá, ele tenta explicar aos outros que as sombras na parede não passam de trêmulas imitações da realidade. Mas ninguém acredita nele. As pessoas apontam para a parede da caverna e dizem que aquilo que vêem é tudo o que existe. Por fim, acabam matando-o.
O que Platão nos mostra com esta alegoria da caverna é o caminho que o filósofo percorre das noções imprecisas para as idéias reais que estão por trás dos fenômenos da natureza. Na certa Platão também estava pensando em Sócrates, que tinha sido morto pelos “habitantes da caverna” por ter colocado em dúvida as noções a que eles estavam habituados e por querer lhes mostrar o caminho do verdadeiro conhecimento. Desta forma, a alegoria da caverna é uma imagem da coragem e da responsabilidade pedagógica do filósofo.
Platão defende o ponto de vista de que a relação entre as trevas da caverna e a natureza fora dela corresponde à relação entre as formas da natureza e o mundo das idéias. Ele não acha a natureza em si sombria e triste, mas acha sim que ela é sombria e triste em relação à clareza das idéias. A foto de uma bela jovem não é sombria e triste. Ao contrário. Só que não deixa de ser uma foto.

Platão (Parte 04/05)


UMA ALMA IMORTAL

Vimos que, para Platão, a realidade se dividia em duas partes.
A primeira parte é o mundo dos sentidos, do qual não podemos ter senão um conhecimento aproximado ou imperfeito, já que para tanto fazemos uso de nossos cinco (aproximados e imperfeitos) sentidos. Nesse mundo dos sentidos, tudo “flui” e, conseqüentemente, nada é perene. Nada é no mundo dos sentidos; nele, as coisas simplesmente surgem e desaparecem.
A outra parte é o mundo das idéias, do qual podemos chegar a ter um conhecimento seguro, se para tanto fizermos uso de nossa razão. Este mundo das idéias não pode, portanto, ser conhecido através dos sentidos. Em compensação, as idéias (ou formas) são eternas e imutáveis.
Para Platão, portanto, o homem também é um ser dual. Temos um corpo, que “flui” e que está indissoluvelmente ligado ao mundo dos sentidos, compartilhando do mesmo destino de todas as outras coisas presentes neste mundo (por exemplo, uma bolha de sabão). Todos os nossos sentidos estão ligados a este corpo e, conseqüentemente, não são inteiramente confiáveis. Mas também possuímos uma alma imortal, que é a morada da razão. E justamente porque a alma não é material, ela pode ter acesso ao mundo das idéias.
Já estou quase no fim. Mas há algo mais, Sofia. ALGO MAIS!
Platão também achava que a alma já existia antes de vir habitar nosso corpo. E ela existia no mundo das idéias. (Ela ficava junto com as fôrmas de bolo lá no alto da prateleira.) Entretanto, no momento mesmo em que a alma passa a habitar o corpo humano, ela se esquece das idéias perfeitas. E então tem início um processo extraordinário: quando as pessoas entram em contato com as formas da natureza, aos poucos uma vaga lembrança vai emergindo dentro de sua alma. O homem vê um cavalo, mas um cavalo imperfeito (ou uma broa em forma de cavalinho!). E isto é suficiente para despertar na sua alma a vaga lembrança do cavalo ideal que ela conheceu um dia no mundo das idéias. Ao mesmo tempo em que ocorre, isto desperta no homem um anseio de retornar à verdadeira morada da alma. Platão chamava este anseio, esta saudade, de Eros, que significa amor. A alma experimenta, portanto, um “anseio amoroso” de retornar à sua verdadeira morada. A partir de então, ela passa a perceber o corpo e tudo o que é sensorial como imperfeito e supérfluo. Nas asas do amor, a alma deseja voar “de volta para casa”, para o mundo das idéias. [Veja na Bíblia, em Lc 15.11-32, a parábola do filho pródigo.] Ela quer se libertar do cárcere do corpo.
Devo dizer sem demora que Platão descreve aqui o desenrolar ideal de uma vida, pois é claro que nem todas as pessoas liberam suas almas para que elas possam empreender uma jornada de volta ao mundo das idéias. A maioria das pessoas apega-se aos “reflexos” das idéias no mundo dos sentidos. Elas vêem um cavalo, e outro, e depois outro. Mas não conseguem ver aquilo de que o cavalo é apenas uma imitação grosseira. (Elas entram na cozinha e “atacam” as broas, sem se perguntar de onde elas surgiram.) O que Platão descreve é o caminho percorrido pelo filósofo. Podemos considerar sua filosofia a descrição da atividade de um filósofo.
Quando você vê uma sombra, Sofia, na mesma hora você pensa que alguma coisa deve estar projetando esta sombra. Por exemplo, pode acontecer de você ver a sombra de um animal. Talvez a de um cavalo, mas você não está bem certa. Então você se vira e vê o animal verdadeiro, que, naturalmente, é muito mais bonito e de contornos mais nítidos do que a imprecisa sombra. É POR ISSO QUE PLATÃO CONSIDERA TODOS OS FENÔMENOS DA NATUREZA MEROS REFLEXOS DAS FORMAS ETERNAS, OU IDÉIAS. Só que a maioria das pessoas está satisfeita com sua vida em meio a esses reflexos sombreados. Elas acreditam que as sombras são tudo o que existe, e por isso não as vêem como sombras. Com isto, esquecem-se também da imortalidade de suas almas.

Platão (Parte 03/05)


O VERDADEIRO CONHECIMENTO

Até aqui acho que você está me acompanhando, minha cara Sofia. Mas talvez você esteja se perguntando se Platão estava realmente falando sério. Será que ele acreditava mesmo que tais fenômenos pudessem existir numa realidade totalmente diferente?
Certamente ele não pensou literalmente desta forma durante toda a sua vida, mas a leitura de alguns de seus diálogos deixa claro que é assim que ele quer ser entendido. Vamos tentar acompanhar sua linha de argumentação.
Como dissemos, um filósofo tenta entender algo que é eterno e imutável. Teria pouco sentido, por exemplo, escrever todo um tratado de filosofia sobre a existência de determinada bolha de sabão. Em primeiro lugar, porque se teria pouca chance de examiná-la cuidadosamente antes que ela desaparecesse. Em segundo, porque dificilmente se conseguiria vender um tratado filosófico sobre algo que ninguém viu e que existiu por apenas alguns segundos.
Platão achava que tudo o que vemos ao nosso redor na natureza, tudo o que podemos tocar pode ser comparado a uma bolha de sabão. Pois nada do que existe no mundo dos sentidos é duradouro. Você concorda que todas as pessoas e todos os animais mais cedo ou mais tarde morrem e desaparecem, não é mesmo? Até um bloco de mármore aos poucos vai se desfazendo e se desintegrando. (A Acrópole de hoje não passa de ruínas, Sofia. Uma coisa escandalosa, se você quer saber a minha opinião. Mas a vida é essa…) Platão é da opinião de que nunca podemos chegar a conhecer verdadeiramente algo que se transforma. Sobre as coisas do mundo dos sentidos, coisas tangíveis, portanto, não podemos ter senão opiniões incertas. E só podemos chegar a ter um conhecimento seguro daquilo que reconhecemos com a razão.
Sim, sim, Sofia, vou explicar melhor: retornando ao exemplo da broa em forma de anãozinho, pode muito bem acontecer de alguma coisa dar errado enquanto o padeiro está fazendo a massa, ou então enquanto a broa está crescendo ou assando, de tal modo que, no fim, não seja possível dizer que formato aquela broa tem. Mas depois de eu ter visto vinte, trinta broas em forma de anãozinho, pois mais imperfeitas que elas sejam, posso ter uma idéia clara do formato que possui a fôrma em que elas foram assadas. E posso chegar a esta conclusão mesmo sem nunca ter visto a fôrma. Aliás, nada garante que seria melhor ver a fôrma com os próprios olhos, isto porque nem sempre podemos confiar em nossos sentidos. A faculdade de visão pode variar de pessoa para pessoa. De outra parte, podemos confiar no que a razão nos diz, pois a razão é a mesma para todas as pessoas.
Se você está numa sala de aula com trinta alunos e o professor pergunta qual a cor mais bonita do arco-íris, certamente ele ouvirá muitas respostas diferentes. Mas se ele perguntar quanto é três vezes oito, a classe inteira deve chegar ao mesmo resultado. É que neste caso é a razão quem julga; e a razão é, de certa forma, o extremo oposto de achar e sentir. Podemos dizer que a razão é eterna e universal, justamente porque ela só se manifesta sobre dados que são eternos e universais.
Platão interessou-se muito por matemática, exatamente porque os dados matemáticos nunca se alteram. Por isso podemos chegar a um conhecimento seguro no que diz respeito à matemática. Mas vamos dar um exemplo: imagine que você encontre na floresta uma pinha redonda. Talvez você diga que “acha” a pinha perfeitamente redonda, mas pode ser que [sua amiga] Jorunn afirme que a pinha está um pouco amassada de um lado. (E aí vocês começam a discutir!) Só que não dá para vocês chegarem a um conhecimento seguro sobre aquilo que vêem com os olhos. Por outro lado, vocês sabem que a soma dos ângulos de um círculo é exatamente 360°. Neste caso, porém, vocês estão falando de um círculo ideal, que não existe na natureza, mas que vocês conseguem visualizar perfeitamente com os “olhos de dentro”. (Vocês estão falando sobre o formato oculto da fôrma, e não sobre uma broa específica, casual, que está sobre a mesa da cozinha.)
Para resumir brevemente: não podemos ter senão opiniões incertas sobre tudo o que sentimos ou percebemos sensorialmente. Mas podemos chegar a um conhecimento seguro sobre aquilo que reconhecemos com nossa razão. A soma dos ângulos de um triângulo é 180°. E será assim por toda a eternidade. Da mesma forma, a “idéia” de que um cavalo terá sempre quatro patas continuará válida, ainda que todos os cavalos do mundo dos sentidos fiquem mancos de uma perna.

Platão (Parte 02/05)


O MUNDO DAS IDÉIAS

Empédocles e Demócrito já tinham nos chamado a atenção para o fato de que, apesar de todos os fenômenos da natureza “fluírem”, havia “algo” que nunca se modificava (as “quatro raízes” ou os “átomos”). Platão também se dedicou a este problema, mas de forma completamente diferente.
Platão achava que tudo o que podemos tocar e sentir na natureza “flui”. Não existe, portanto, um elemento básico que não se desintegre. Absolutamente tudo o que pertence ao “mundo dos sentidos” é feito de um material sujeito à corrosão do tempo. Ao mesmo tempo, tudo é formado a partir de uma forma eterna e imutável.
Entendeu? Tudo bem, não entendeu…
Por que todos os cavalos são iguais, Sofia? Talvez você ache que eles não são iguais. Mas existe algo que é comum a todos os cavalos; algo que garante que nós jamais teremos problemas para reconhecer um cavalo. Naturalmente, o “exemplar” isolado do cavalo, este sim “flui”, “passa”. Ele envelhece e fica manco, depois adoece e morre. Mas a verdadeira “forma do cavalo” é eterna e imutável.
Para Platão, este aspecto eterno e imutável não é, portanto, um “elemento básico” físico. Eternos e imutáveis são os modelos espirituais ou abstratos, a partir dos quais todos os fenômenos são formados.
Eu explico melhor: os pré-socráticos tinham oferecido uma explicação muito plausível para as transformações da natureza, sem ter de pressupor que algo efetivamente “se transformava”. Eles achavam que no ciclo da natureza havia partículas mínimas, eternas e constantes, que não se desintegravam. Muito bem, Sofia! Eu disse muito bem! Só que eles não tinham uma explicação aceitável de como estas partículas mínimas, que um dia tinham se juntado para formar um cavalo, se juntavam novamente quatrocentos ou quinhentos anos mais tarde para formar outro cavalo, novinho em folha! Ou um elefante, ou um crocodilo. O que Platão quer dizer é que os átomos de Demócrito nunca podem se juntar para formar um “crocofante” ou um “eledilo”. E foi isto, precisamente, que colocou em marcha suas reflexões filosóficas.
Se você já entendeu o que estou dizendo, pode pular este parágrafo. Caso não tenha entendido, vou tentar ser mais claro: digamos que você pegue uma caixa cheia de peças de Lego e construa um cavalo. Depois você desmancha o que fez e recoloca as peças de volta na caixa. Você não pode esperar obter outro cavalo apenas chacoalhando a caixa de peças. Afinal, como é que as peças de Lego podem produzir um cavalo por si mesmas? Não… você é que tem que montar o cavalo novamente, Sofia. E se você conseguir, isto significa que na sua cabeça você tem uma imagem do que seja um cavalo. O cavalo de Lego foi formado, portanto, a partir de uma imagem padrão que permanece inalterada de cavalo para cavalo.
Você não chegou a uma conclusão semelhante sobre os cinqüenta bolos iguais? [Página 92: “Meu nome é Platão, e eu gostaria de propor quatro tarefas para você. Primeiro, gostaria que você refletisse sobre como um padeiro consegue assar cinqüenta bolos exatamente iguais.”] Vamos imaginar agora que você caia do espaço na Terra e nunca tenha visto uma padaria. Então você passa pela vitrine muito convidativa de uma padaria e vê sobre um tabuleiro cinqüenta broas exatamente iguais, todas em forma de anõezinhos. Suponho que, nessas condições, você vá coçar a cabeça e se perguntar como todas aquelas broas podem ser iguais. E é bem possível que você perceba que um anãozinho está sem um braço, o outro perdeu um pedaço da cabeça e um terceiro tem uma barriga maior que a dos outros. Contudo, depois de pensar bem, você chega à conclusão de que todas as broas em forma de anãozinho têm um denominador comum. Embora nenhum deles seja absolutamente perfeito, você suspeita que eles devem ter uma origem comum. E chega à conclusão de que todos foram assados na mesma fôrma.
E mais ainda, Sofia: isto desperta em você o desejo de ver esta fôrma, pois fica claro que ela deve ser indescritivelmente mais perfeita e, de certa forma, mais bonita do que uma de suas frágeis e imperfeitas cópias.
Se você resolveu esta questão sozinha, então você conseguiu resolver um problema filosófico exatamente da mesma maneira que Platão. Como a maioria dos filósofos, ele também “caiu do espaço na Terra”, por assim dizer. (Ele foi lá para a pontinha dos finos pêlos do coelho.) [Página 26: “PS. Quanto ao coelhinho branco, talvez seja melhor compará-lo com todo o universo. Nós, que vivemos aqui, somos os bichinhos microscópicos que vivem na base dos pêlos do coelho. Mas os filósofos tentam subir da base para a ponta dos finos pêlos, a fim de poder olhar bem dentro dos olhos do grande mágico.”] Platão ficou admirado com a semelhança entre todos os fenômenos da natureza e chegou, portanto, à conclusão de que “por cima” ou “por trás” de tudo o que vemos à nossa volta há um número limitado de formas. A estas formas Platão deu o nome de idéias. Por trás de todos os cavalos, porcos e homens existe a “idéia cavalo”, a “idéia porco” e a “idéia homem”. (E é por causa disto que a citada padaria pode fazer broas em forma de porquinhos ou de cavalos, além de anõezinhos. Pois uma padaria que se preze geralmente tem mais que uma fôrma. Só que uma única fôrma é suficiente para todo um tipo de broa.)
Conclusão: Platão acreditava numa realidade autônoma por trás do “mundo dos sentidos”. A esta realidade ele deu o nome de mundo das idéias. Nele estão as “imagens padrão”, as imagens primordiais, eternas e imutáveis, que encontramos na natureza. Esta notável concepção é chamada por nós de a teoria das idéias de Platão.

Platão (Parte 01/05)


O ETERNAMENTE VERDADEIRO, ETERNAMENTE BELO E ETERNAMENTE BOM

No início deste nosso curso de filosofia, eu lhe disse que o interessante é perguntar pelo projeto de determinado filósofo. Nesse sentido, o que será que Platão queria investigar?
Para resumir em poucas palavras: Platão interessava-se pela relação entre aquilo que, de um lado, é eterno e imutável, e aquilo que, de outro, “flui”. (Exatamente como os pré-socráticos, portanto!)
Dissemos que os sofistas e o próprio Sócrates haviam se afastado das questões da filosofia natural e se interessado mais pelo homem e pela sociedade. E isto está absolutamente certo. Mas também Sócrates e os sofistas ocupavam-se de certa forma com a relação entre aquilo que, de um lado, é eterno e imutável, e aquilo que, de outro, “flui”. E tocavam neste ponto quando se tratava da moral do homem e dos ideais ou virtudes da sociedade. De modo muito geral, os sofistas achavam que a questão sobre o que era certo e errado modificava-se de cidade-Estado para cidade-Estado e de geração para geração. Para eles, portanto, essa questão de certo ou errado era “algo que fluía”. Sócrates não podia aceitar isto. Ele acreditava em regras ou normas eternas, que governavam o agir dos homens. Se usarmos apenas a nossa razão – dizia ele -, poderemos reconhecer todas essas normas imutáveis, pois a razão humana é precisamente algo eterno e imutável.
Você está acompanhando, Sofia? E agora vem Platão. Ele se interessava tanto pelo que é eterno e imutável na natureza quanto pelo que é eterno e imutável na moral e na sociedade. Sim… para Platão tratava-se, em ambos os casos, de uma mesma coisa. Ele tentava entender uma “realidade” que fosse eterna e imutável. E, para ser franco, é para isto que os filósofos existem. Eles não estão preocupados em eleger a mulher mais bonita do ano, ou os tomates mais baratos do fim de feira. (E exatamente por isso nem sempre são vistos com bons olhos!) Os filósofos não se interessam muito por essas coisas efêmeras e cotidianas. Eles tentam mostrar o que é “eternamente verdadeiro”, “eternamente belo” e “eternamente bom”.
Com isto podemos ter uma vaga idéia dos contornos do projeto filosófico de Platão. A partir de agora vamos tratar de um ponto de cada vez. Vamos tentar entender um raciocínio extraordinário, que deixou marcas profundas em toda a filosofia européia surgida depois.

Extratos da obra de GAARDER, Jostein.
O Mundo de Sofia. Romance da História da Filosofia.
São Paulo: Cia das Letras, 1996.