"Nada se espalha com maior rapidez do que um boato" (Virgílio)

Confúcio era só apelido


O filósofo chinês Confúcio não se chamava assim. O nome era Chiu e o sobrenome, Kung. Por ser nobre, era tratado cerimoniosamente por Fu. Os jesuítas portugueses quando chegaram à China, entenderam o Kung-Fun-Chiu – Dom Ciu, da família Kung – como Confucius, forma que foi consagrada no mundo ocidental.

As primeiras armas utilizadas pelo homem


O arco e a flecha foram as primeiras armas usadas pelo homem. Datam do período da pedra lascada. Estes arcos primitivos eram grandes: arcos tinham dois metros de altura e usavam tripas ou tendões de animais para lançar as flechas.

Incêndios quase detruíram Londres


Londres nunca sofreu terremotos, mas detém o recorde de incêndios gigantescos que quase a destruíram nos anos de 962, 1087, 1262 e 1666. Durante a II Guerra, quase a metade da cidade foi demolida pelos bombardeios alemães.

A Amizade (Parte 07/07)

Charles Darwin (1809-1882)

O Homem: Animal e Racional

Na ética, Aristóteles, preocupa-se em orientar o agir em função da razão, pois por viver em sociedade e em relação a outros homens, desenvolve-se por meio da razão a cultura, ou seja, o modo de viver que é pautado pela racionalidade.
A partir do que apresenta Aristóteles sobre a amizade e, obviamente, como componente ético do agir humano, é possível elencar a seguinte questão: O homem é resultado daquilo que a natureza e a biologia fizeram dele ou, é um produto do meio social e cultural?
Para ajudar na busca de solução a esta questão, tendo como foco a importância que Aristóteles dedica a amizade, e a necessidade de o homem desenvolver determinados hábitos para viver em sociedade e, portanto, poder contribuir com o bem-estar; apresenta-se a discussão do biólogo Charles Darwin, que trata o homem enquanto ser biológico, ou seja, animal. O estudo que Charles Darwin realiza tem como foco o desenvolvimento da vida ao longo do tempo no planeta. Nesta busca, Darwin parte da tese de que as diferentes espécies de vida existentes no planeta evoluem.
Mas ao considerar a evolução da vida e, portanto, das espécies trata o homem também como um ser que sofre os mesmos processos na busca de preservar a vida e a espécie. Esta abordagem considera o homem em sua animalidade. É claro que ao fazer isso, Darwin não quer negar o desenvolvimento da cultura e a influência da mesma para a vida humana.
Em um dos capítulos de sua obra A origem das Espécies, de 1859, Darwin trata da luta pela existência, onde discorre sobre como no meio animal as diversas espécies agem em busca de garantir sua existência. Darwin denomina luta por entender que há um conflito de interesses entre as diversas espécies que habitam o meio e que procuram em função do meio garantir a existência.

Tudo o que podemos fazer é ter sempre em mente a idéia de que todos os seres vivos pelejam por aumentar em proporção geométrica, e que cada qual, pelo menos em algum período de sua vida, ou durante alguma estação do ano, seja permanentemente, ou então de tempos em tempos, tem de lutar por sua sobrevivência e está sujeito a sofrer considerável destruição. Quando refletimos sobre essa luta vital, podemos consolar-nos com a plena convicção de que a guerra que se trava na natureza não é incessante, nem produz pânico; que a morte geralmente sobrevém de maneira imediata e que os mais resistentes, os mais fortes, os mais saudáveis e os mais felizes conseguem sobreviver e multiplicar-se. (DARWIN, 1994, p. 87)

Darwin apresenta uma conclusão a partir da série de observações que fez da natureza. O que é bastante claro é o fato de que no reino natural ocorre constantemente a luta pela sobrevivência, e isto é visível, sobretudo quando se observa a intervenção do homem no meio.
Destaca-se o fato de que, para Darwin, o homem é um animal e que por mais vantagens que tenha sobre todos os demais e sobre o meio em que vive também ele é movido por suas características animais, que interferem em sua vida cotidiana.
As características animais do ser humano estarão sujeitas ou não a sua racionalidade. Portanto, quando se estuda em Aristóteles que o homem é um animal racional, constata-se que a vantagem do homem sobre os demais animais se dá pelo uso que faz da razão. A abordagem do tema amizade se torna desafiadora ao observar que o mesmo homem que, segundo Aristóteles, por meio do desenvolvimento de sua razão tem o domínio de suas emoções, sentimentos e ações, e também movidos por sua animalidade, onde predomina seus impulsos, desejos e instintos.
Para a sustentação de um pensamento ético possível, pautado na racionalidade como quer Aristóteles é possível ignorar o outro lado deste mesmo ser, ou seja, sua animalidade? Pensa-se que não, pois tais preocupações deram origem a outras ciências que buscam estudar e entender como se dá o equilíbrio entre o que há em cada ser humano: o animal e o racional.
Por isso, é bom lembrar que o próprio homem é um ser em evolução, como afirma Darwin, mas, sobretudo a ser descoberto como se pode constatar com o desenvolvimento de outras ciências que o têm como seu objeto principal de estudo e pesquisa.

A Amizade (Parte 06/07)


Amizade e Sociedade

Para entender as diversas decepções amistosas presentes em nosso dia-a-dia é preciso saber como funciona a sociedade, pois a amizade é um sentimento que fundamenta as relações sociais e todas as nossas relações são marcadas pela “ditadura da utilidade”, como afirmava Leminski. Assim explica Leminski o que pensa ser a ditadura da utilidade:

E o princípio da utilidade corrompeu todos os setores da vida, nos fazendo crer que a própria vida tem que dar lucro. Vida é dom dos deuses, para ser saboreada intensamente até que a Bomba de Nêutrons ou o vazamento da usina nuclear nos separe deste pedaço de carne pulsante, único bem de que temos certeza. O amor. A amizade. O convívio. O júbilo do gol. A festa. [...] A poesia. A rebeldia. Os estados de graça. [...] estas coisas não precisam de justificação nem de justificativas. Todos sabemos que elas são a própria finalidade da vida. (LEMINSKI, 1997, p. 77)

Leminski discute o conceito de utilidade que perpassa a sociedade contemporânea. É claro que esta discussão precisa ser analisada e não simplesmente aceita como uma verdade pronta e acabada. Basicamente a preocupação de Leminski é a de apresentar que, para a sociedade atual, o mundo da necessidade sobrepõe-se ao da liberdade. Porém, a vida, ou melhor, o que realmente dá sentido à vida, está relacionado ao mundo da liberdade. Conclui Leminski que isto é uma verdade para todas as pessoas, ou seja, que todos temos clareza disso.
Será que o poeta está certo? De fato, todos temos consciência de que o amor, a amizade são a própria finalidade da vida?
Aristóteles nos apresenta como finalidade o bem e, portanto, a felicidade. O que nos apresenta a respeito da amizade serve como referência para as relações sociais na sociedade capitalista que vivemos? O que Aristóteles apresenta como amizade perfeita é possível na sociedade onde predomina a ditadura da utilidade?

Parece que o amor é uma emoção e a amizade é uma disposição de caráter; de fato, pode-se sentir amor também por coisa inanimada, mas o amor recíproco pressupõe escolha e a escolha tem origem na disposição de caráter; além disto, desejamos bem às pessoas que amamos pelo que elas são, e não em decorrência de um sentimento, mas de uma disposição do caráter. Gostando de um amigo as pessoas gostam do que é bom para si mesmas, pois a pessoa boa, tornando-se amiga, torna-se um bem para seu amigo. Cada uma das partes, então, ama o seu próprio bem e oferece à outra parte uma retribuição equivalente, desejando-lhe bem e proporcionando-lhe prazer. A propósito, diz-se que a amizade é igualdade, e ambas se encontram principalmente nas pessoas boas. (ARISTÓTELES, 2001, p. 159)

O que diferencia o amor da amizade é o fato de que as emoções são inerentes a nós, ou seja, estão em nós e, portanto, apenas se manifestam e, inclusive, até mesmo contrárias a nossa vontade. Já a amizade é uma disposição de caráter, ou seja, algo que não está em nós, mas que possuímos condições para adquirir. E para isso exercitamos nossa capacidade de escolha. A diferença é não escolho se fico irado ou não diante de uma dada situação, mas o poder de controlar tal emoção, sentindo-a pouco, média ou muito. A disposição de caráter é esta capacidade de escolha.
Você já deve ter ouvido as pessoas falarem que “os amigos a gente escolhe, já os parentes não”. E de fato por ser a amizade uma disposição de caráter, pressupõe escolha. E Aristóteles nos diz que a amizade é igualdade e, sobretudo, pressupõe a reciprocidade. Sem reciprocidade não há amizade.

A Amizade (Parte 05/07)



O Determinante da Amizade

Havendo então três motivos pelos quais as pessoas amam, a palavra “amizade” não se aplica ao amor às coisas inanimadas, já que neste caso não há reciprocidade de afeição, e também não haverá o desejo pelo bem de um objeto [...] mas em relação a um amigo dizemos que devemos desejar-lhe o que é bom por sua causa. Entretanto, àqueles que desejam o bem desta maneira atribuímos apenas boas intenções se o desejo não é correspondido; quando há reciprocidade, a boa intenção é a amizade. (ARISTÓTELES, 2001, p. 155)

A amizade, segundo Aristóteles, pressupõe reciprocidade. É um sentimento específico para os nossos semelhantes, pois precisamos que nosso sentimento seja correspondido. É por isso que muitos comentadores de Aristóteles e estudiosos do pensamento grego afirmam que a amizade para os gregos é o “(...) que torna, entre si, semelhantes e iguais”. (VERNANT,1973)
Então, segundo Aristóteles, “(...) para que as pessoas sejam amigas deve-se constatar que elas têm boa vontade recíproca e se desejam bem reciprocamente”. (ARISTÓTELES, 2001, p. 155)

Os amigos cuja afeição é baseada no interesse não amam um ao outro por si mesmos, e sim por causa de algum proveito que obtêm um do outro. O mesmo raciocínio se aplica àqueles que se amam por causa do prazer; não é por seu caráter que gostamos das pessoas espirituosas, mas porque as achamos agradáveis. Logo, as pessoas que amam as outras por interesses amam por causa do que é bom para si mesmas, e aquelas que amam por causa do prazer amam por causa do que lhes é agradável, e não porque a outra pessoa é a pessoa que ama, mas porque ela é útil ou agradável. (ARISTÓTELES, 2001p. 155)

Há espécies de amizade em que predomina a busca pelo útil ou agradável, algo passageiro, segundo Aristóteles, pois é uma característica do ser, que Aristóteles chama de acidente, por se tratar de características que não são permanentes, pois a utilidade está sempre em mudança, pelo fato de ser o resultado de algum bem ou prazer.

Este tipo de amizade, segundo Aristóteles, parece existir principalmente entre as pessoas idosas (nesta idade as pessoas buscam não o agradável, mas o útil) e, em relação às pessoas que estão em plenitude ou aos jovens, entre aqueles que buscam o proveito. Entre estas amizades se incluem os laços de família e de hospitalidade. (ARISTÓTELES, 2001, p. 155-156)

Aristóteles afirma que entre os jovens o motivo da amizade é o prazer, por viverem sob a influência das emoções e buscarem o que lhes é agradável, porém o prazer muda com a idade. Aristóteles faz uma observação minuciosa das fases da vida e de como as emoções e o prazer são diferentes em cada uma delas. Não está, contudo afirmando ou declarando que não seja possível outro tipo de amizade nestas fases da vida, mas demonstrando o que lhes é mais comum.

A amizade perfeita é a existente entre as pessoas boas e semelhantes em termo de excelência moral; neste caso, cada uma das pessoas quer bem à outra de maneira idêntica, porque a outra pessoa é boa, e elas são boas em si mesmas. Então as pessoas que querem bem aos seus amigos por causa deles são amigas no sentido mais amplo, pois querem bem por causa da própria natureza dos amigos, e não por acidente; logo, sua amizade durará enquanto estas pessoas forem boas, e ser bom é uma coisa duradoura. (ARISTÓTELES, 2001, p. 156)

Aristóteles apresenta em que consiste uma amizade perfeita. A amizade perfeita acontecerá entre pessoas boas e semelhantes em relação à virtude, ou seja, as que fazem a escolha adequada de suas ações e emoções e que querem o bem aos amigos por causa deles mesmos, da própria natureza dos amigos e não por ser agradável ou útil. Toda amizade é baseada no bem ou no prazer. Portanto, a baseada no bem só poderá ocorrer entre pessoas boas.
Quando se fala em bem, considera-se a ética, pois pressupõe que o homem age sempre em busca de ser feliz e que conseguirá isto se buscar o bem, pois o seu contrário lhe acarretará a infelicidade. As pessoas boas são aquelas que possuem uma vida orientada pela busca do agir ético, visam o equilíbrio em suas ações e emoções.

Então, quando a amizade é por prazer ou por interesse mesmo duas pessoas más podem ser amigas, ou então uma pessoa boa e outra má, ou uma pessoa que não é nem boa nem má pode ser amiga de outra qualquer espécie; mas pelo que são em si mesmas é óbvio que somente pessoas boas podem ser amigas. Na verdade, pessoas más não gostam uma da outra a não ser que obtenham algum proveito recíproco. (ARISTÓTELES, 2001, p. 157)

Aristóteles fala da amizade que se dá pelo prazer ou interesse e a que se dá pelo que as pessoas são em si mesmas. Considera que a que se dá por prazer ou interesse poderá existir entre as pessoas más. Mas a amizade perfeita só poderá ocorrer entre as pessoas boas e semelhantes pelo fato de que amam a pessoa em si mesma.
Você já deve ter ouvido muito o ditado popular: “Diga-me com quem andas e te direi quem és”. Esse ditado popular é muito usado quando nos orientam a respeito de nossas amizades, de nossas companhias. Ele traduz o que nos ensina Aristóteles a respeito da amizade. Pois, podemos estar andando com pessoas más sem percebermos que o que em nós as atrai não é o que somos, mas o que lhes oferecemos, ou temos a oferecer. É por isso que há tantas decepções nas relações amistosas.

A Amizade (Parte 04/07)


A amizade é algo humano

Independente de qual dos dois autores você tenha escolhido, para continuar é preciso posicionar-se em relação aos problemas que Aristóteles nos apresenta, após afirmar que em ambos os casos, Heráclito e Empédocles, a amizade é examinada como um problema físico e que deve ser analisada como “(...) problemas relativos ao homem, pertinentes ao caráter e aos sentimentos”. (ARISTÓTELES, 2001, p. 154)
Para responder aos questionamentos que havia levantado, Aristóteles começa por afirmar que há várias espécies de amizade e “(...) a questão das várias espécies de amizades talvez possa ser esclarecida se antes chegarmos a conhecer o objeto do amor.” (ARISTÓTELES, 2001, p. 154)
“Parece que nem todas as coisas são amadas, mas somente aquelas que merecem ser amadas e estas são o que é bom, ou agradável, ou útil”. (ARISTÓTELES, 2001, p. 154)
Aristóteles afirma a existência de várias espécies de amizades e admite que as mesmas estejam relacionadas aos objetos de amor, ou seja, de que amamos o que é bom, ou agradável ou útil e, portanto a amizade vai estar relacionada a isto.
É preciso esclarecer que Aristóteles concebe o homem como algo que realmente é – Ato; e algo que tende a ser – Potência. Então, o homem por meio de seus atos poderá ou não realizar o que é em potência. Isto irá ocorrer em busca de sua finalidade – a felicidade. Para isso, o homem dispõe da razão que lhe serve como guia, orientadora de suas ações. Por meio da razão o homem irá construir, desenvolver hábitos e formas de agir a partir da excelência moral, a virtude, que o possibilitará fazer as escolhas equilibradas para suas ações e emoções, ou seja, buscar a harmonia.
Quando Aristóteles fala da amizade, e que a amizade perfeita é a que se dá entre pessoas boas, é preciso saber que, para Aristóteles, as pessoas não são boas em si mesmas, mas o bem e a bondade estão em potência nas pessoas, que poderão a partir de suas escolhas, atingirem ou não.
Aristóteles pressupõe a existência da amizade entre os diversos tipos de pessoas e diz que demonstra o que seja uma pessoa boa ou má é a excelência moral de suas ações. “A amizade perfeita é a existente entre as pessoas boas e semelhantes em termos de excelência moral”. (ARISTÓTELES, 2001, p. 156)

A Amizade (Parte 03/07)


A Amizade e a Justiça

Um outro conceito que Aristóteles apresenta relacionado à amizade é a justiça. Afirma que entre amigos não há necessidade de justiça.
Aristóteles pressupõe a vida do homem na pólis, na cidade, por ser o homem um ser social. O conceito de justiça está diretamente ligado à vida na pólis. Quando se fala da pólis é preciso esclarecer que existem dois espaços: o da pólis – público e, o do oikos, da casa, o privado.
A amizade entre os cidadãos Aristóteles denomina concórdia. Segundo ele a amizade não é apenas necessária, mas também nobilitante, ou seja, nobre, louvável. Conclui que a amizade e a bondade encontram-se nas pessoas que são amigas de seus amigos. Antes de opinar sobre o que seja a amizade, Aristóteles apresenta o que os estudiosos de sua época diziam, ou seja, alguns filósofos que o antecederam ou foram seus contemporâneos.

Mas não poucos aspectos da amizade são objeto de debates. Alguns estudiosos do assunto definem a amizade como uma espécie de semelhança entre as pessoas e dizem que as pessoas semelhantes são amigas – daí vem os provérbios como “o semelhante encontra seu semelhante “[...].Outros tentam achar uma explicação mais profunda e mais física para este sentimento. Eurípides, por exemplo, escreve: “A terra seca ama a chuva, e o divino céu pleno de chuva ama molhar a terra! “Heráclitos, em contraste, diz: “Os contrários andam juntos”, “A mais bela harmonia é feita de tons diferentes” e “Tudo nasce do antagonismo!” Outros sustentam um ponto de vista oposto a este, principalmente Empédocles, segundo o qual “o semelhante busca o semelhante”. (ARISTÓTELES, 2001, p. 154).

De acordo com os estudiosos, segundo Aristóteles, basicamente dois princípios definem o sentimento amizade: o de Heráclito – “Os contrários andam juntos” e o de Empédocles – “O semelhante busca o semelhante”. É preciso esclarecer que tanto Heráclito como Empédocles apresentam uma explicação física para a amizade.

A Amizade (Parte 02/07)

Pe. Antônio Vieira

A Amizade como uma questão para a Ética

A amizade foi também motivo de investigação em Aristóteles na obra, Ética a Nicômacos, nos livros IX e X, discorre de forma minuciosa e exaustiva sobre o tema.

A amizade parece também manter as cidades unidas, e parece que os legisladores se preocupam mais com ela do que com a justiça; efetivamente a concórdia parece assemelhar-se à amizade, e eles procuram assegurá-la mais do que tudo, ao mesmo tempo que repelem tanto quanto possível o facciosismo, que é a inimizade nas cidades. Quando as pessoas não têm necessidade de justiça, enquanto mesmo quando são justas elas necessitam da amizade; considera-se que a mais autêntica forma de justiça é uma disposição amistosa.
E a amizade não é somente necessária; ela também é nobilitante, pois louvamos as pessoas amigas de seus amigos, e pensamos que uma das coisas mais nobilitantes é ter muitos amigos; além disto, há quem diga que a bondade e a amizade se encontram nas mesmas pessoas. (Aristóteles, 2001, p.153-154)

Aristóteles apresenta a amizade como fundamental para a união das cidades e dos povos. A inimizade entre as cidades e países gera conflitos e guerras, por isso a preocupação dos legisladores em evitar que haja divisões.
Para entender melhor a questão da amizade como uma questão ética é preciso ter claro o que Aristóteles pressupõe, ou seja, os valores que fundamentam e dão sustentação à amizade. A amizade perfeita, que poderíamos aqui denominar de verdadeira, ocorre entre pessoas boas e inexiste a calúnia, pois há confiança e sinceridade, já que pessoas boas gostam do que é bom. E por que Aristóteles diz isso? Por entender que “(...) aquilo que é irrestritamente bom e agradável parece ser estimável e desejável, e para cada pessoa o bom ou o agradável é aquilo que é bom ou agradável para ela; e uma pessoa boa é desejável e estimável para outra pessoa por ambas estas razões [...] a pessoa boa, tornando-se amiga, torna-se um bem para seu amigo” (ARISTÓTELES, 2001, p.159).
Então a amizade para Aristóteles está diretamente ligada à bondade. E a bondade é algo agradável e desejável e por isso torna-se busca para as pessoas boas. Mas o que nos torna bons, segundo Aristóteles, é o fato de agirmos de forma acertada, buscando em tudo a mediania, o equilíbrio em nossas ações e diante de nossas emoções. A amizade está relacionada a esta mediania, equilíbrio por ter como características e causas a boa disposição e a sociabilidade, pois “(...) as pessoas boas são ao mesmo tempo agradáveis e úteis. (ARISTÓTELES, 2001, p. 160)
Ao mesmo tempo em que Aristóteles apresenta as características e causas da amizade e as afirma nas pessoas boas, procura destacar que nem sempre as pessoas estão em igualdade de situação nas relações de amizade. E passa a relacionar as espécies de amizade em que há a superioridade de uma das partes. São os casos de amizade entre pai e filho, pessoas idosas e jovens, marido e mulher e em geral, entre quem manda e quem obedece. São amizades que diferem entre si pois a excelência moral e suas funções, bem como as razões de envolvimento das pessoas são diferentes. Nestas amizades “(...) os benefícios que cada parte recebe e pode pretender da outra não são os mesmos da outra”. (ARISTÓTELES 2001, p. 161) Sendo assim, nestes tipos de amizade o que ocorre é a diferença na proporcionalidade de amor que cada uma das partes recebe e tem para com a outra. Então, se na justiça “(...)o que é igual no sentido primordial é aquilo que é proporcional ao merecimento”; na amizade “(...) a igualdade quantitativa é primordial e a proporcionalidade ao merecimento é secundária”. (ARISTÓTELES 2001, p. 161)
Segundo Aristóteles, isto é mais evidente em casos onde “(...) há um grande desequilíbrio entre as partes em relação à excelência moral ou à deficiência moral ou à riqueza ou à qualquer outra coisa”. (ARISTÓTELES, 2001, p. 161) São exemplos disso os deuses e os reis e as pessoas melhores e sábias.

A maioria das pessoas, por causa de sua ambição, parece que prefere ser amada a amar, e é por isto que a maioria gosta de ser adulada; efetivamente, o adulador é um amigo de qualidade inferior, ou que tem a pretensão de ser amigo e quer estimar mais do que ser estimado; ser estimado é quase a mesma coisa que receber honrarias, e é a estas que a maioria das pessoas aspira. (ARISTÓTELES, 2001, p. 162)

Pelo fato de haver proporcionalidade ao merecimento no caso da amizade ser secundário, já que há relações de amizade em que há superioridade de uma das partes, Aristóteles alerta que por ser comum as pessoas preferirem serem amadas a amarem, ou seja, serem aduladas, atraírem para junto de si amigos de qualidade inferior: o adulador.
Sendo a amizade fundamental para a vida em sociedade, seus desvios podem gerar em contrapartida problemas sociais. Será isso realmente possível?
No Brasil, no século XVII, um dos homens mais notáveis da época, padre Antônio Vieira, em um de seus sermões ilustra o risco apresentado por Aristóteles em relação aos amigos de qualidade inferior.
Antônio Vieira, um dos grandes pregadores, que tinha acesso a corte portuguesa, vivera e pregara no Maranhão grande parte de sua vida. Em suas pregações falava aos nobres e, até mesmo, aos escravos. No conjunto de seus sermões encontra-se inclusive o Sermão à Irmandade dos Pretos de um engenho, 1633, que foi uma pregação para os negros no dia da festa do evangelista São João e o Sermão do Rosário.
No Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma, na Capela Real, no ano de 1651, com o mote: “Mas eu vos digo: Amai a vossos inimigos, fazei o bem aos que vos têm ódio” (Mt 5,44), Vieira discute se os reis estão ou não dispensados de amar seus inimigos. Discute quem seriam de fato os inimigos dos reis e príncipes. Ao fazê-lo apresenta uma distinção entre os inimigos e as hostes. Os inimigos seriam os de dentro do reino e as hostes seriam os estranhos, os de fora, os que fazem guerra ao reino, combatem e são combatidos.
Porém, entendendo as hostes como aqueles que combatem e são combatidos em busca de interesses e conquistas entendidas como legítimas, até mesmo com o uso da violência e da guerra, Vieira alerta que o pior e real inimigo do rei não são as hostes, mas “(...) os domésticos, os familiares, os que são admitidos a ouvir e ser ouvidos, êstes (sic) são os aduladores, e por isso, os inimigos”. (VIEIRA, 1957, p. 360-361)
Por que, segundo Vieira, o adulador é o principal e único inimigo dos reis? Porque “(...) a intenção reta dos príncipes não é esta, senão que cada um diga livremente o que entende, e aconselhem o que mais importa; mas, como o norte sempre fixo do adulador é o interesse e a convivência própria, nenhum há que se fie deste seguro real, e todos temem arriscar a graça onde têm posta a esperança. (VIEIRA, 1957, p. 374)
Mesmo pregando na Capela Real, onde com certeza estava o rei e toda sua corte reunida, já que Vieira era um orador que tinha grande prestígio e público, não mede as palavras e é contundente ao afirmar que: “Tão certa é a proposição do nosso assunto, e tão verdadeira e sólida a razão fundamental dêle (sic), que todos os que em palácio são amigos do interesse, são amigos do rei”. (VIEIRA, 1957, p. 380)
Vieira, assim como Aristóteles orientara, alerta reis e príncipes para o cuidado com suas amizades, uma vez que as mesmas, pelo fato de serem eles, pessoas melhores, segundo Aristóteles, e com mais dignidade e soberania, segundo Vieira, correm o risco de estarem cercados de aduladores que irão ofuscá-los com bajulações e causar-lhes a ruína de si mesmos e do reino.

A Amizade (Parte 01/07)


Certa manhã esbarrou Celestino com outro solitário passeante e, ao cruzar com ele e, como de hábito, sorrir-lhe, viu naquela cara o reflexo do seu próprio sorriso, um saudar de compreensão. E, volvendo a cabeça, logo depois de se cruzarem, viu que também o desconhecido a tinha voltada, e tornaram a sorrir um para o outro. Devia de ser um semelhante. Todo aquele dia Celestino o passou mais alegre que de costume, cheio do calor que lhe deixou na alma eco de sua singeleza que o mundo, porque um rosto humano, lhe devolvera.

Na manhã seguinte, defrontaram-se outra vez no momento em que um pardal, com muito ruído, foi pousar num salgueiro próximo. Apontou-o Celestino ao outro, e disse, a rir:

- Que passarinho!.... É um pardal.

- É mesmo, é um pardal – o outro respondeu, rindo também.

E, mutuamente excitados, riram-se a mais não poder: primeiro, do pássaro que lhes fazia coro chilreando, depois, de estarem rindo. E assim ficaram amigos os dois tolos, ao ar livre e sob o céu de Deus (Miguel de Unamuno – 1999).

Você tem amigos?

É possível viver sem ter amigos?

O que é a amizade?

No conto O Semelhante, Miguel de Unamuno apresenta Celestino, o personagem principal, como uma daquelas pessoas que, por serem portadores de deficiência mental, são marginalizadas e maltratadas na comunidade onde vivem. E os rótulos de maluco, tolo entre outros servem de autorização ao sadismo de adultos e até, infelizmente, de crianças.

Texto produzido por Djaci Pereira Leal para a Secretaria de Estado da Educação do Paraná.

Segunda Guerra Mundial (Parte 01/02)


Nesta teleaula você vai ficar sabendo como e onde começou a Segunda Guerra, que reuniu, de um lado, Alemanha, Itália e Japão e, do outro, os países aliados, entre eles a Inglaterra, os Estados Unidos e a União Soviética. Além disso, você vai ver como foram as principais batalhas desse conflito e como ficou o mundo após o seu fim.

Segunda Guerra Mundial (Parte 02/02)

Bioética (Parte 08/08)


EDUCAÇÃO SEXUAL

Existe uma controvérsia a respeito do uso indiscriminado do aborto. Teme-se que com a legalização do aborto, pessoas venham a manter relações sexuais e engravidar de maneira irresponsável já que supostamente poderiam retirar o feto a qualquer momento. Mesmo assim, é imperioso que se mantenha uma objetiva e honesta educação sexual. A indústria farmacêutica possui um grande aparato de prevenção a gravidez precoce, indesejada ou acidental, tais como anticoncepcionais, preservativos (camisinha) masculino e feminino, DIU, tabelinha, pomadas espermicida, pílula do dia seguinte, injeção de Hormônios, chip subcutâneo etc... Seria muita hipocrisia negar o fato de que estamos descobrindo a sexualidade cada vez mais cedo, neste sentido, se faz necessário além de esclarecimentos sobre as responsabilidades inerentes a sexualidade, como doenças, mudanças físicas e psicológicas tratar abertamente dos métodos anticoncepcionais, tanto em nossa escola como na família.

Você já pensou quais os motivos que levam a condenação do aborto? Existe uma especulação acerca do momento em que a vida começa. Filosoficamente, a vida começa com a união de seres, com o amor entre os futuros pais, com o relacionamento humano. Supõe-se que a animação do feto ocorra após 40 dias de fecundação para o nascituro masculino e 80 dias para o feminino. Mas isto não altera a condenação do aborto por parte dos teólogos e religiosos. Também nos remete a pensar que não é o portar de uma alma ou espírito o fato decisório em tal condenação pois essa discussão transcende o espaço puramente biológico.

Mas quando o feto se torna um ser vivo? E quanto a personalidade, quando o feto é uma pessoa? Sabendo que os riscos de mortalidade e complicações aumentam em 6 vezes para a mãe entre a 8ª e a 12ª semana e 30 vezes quando está na 20ª semana, qual é o direito da mulher de escolher correr ou não tal risco? Dependendo da resposta que você der a estas perguntas, será sua posição quanto ao aborto.

Bioética (Parte 07/08)


BIOÉTICA E ABORTO

O elevado número de abortos provocados anualmente no mundo, calculados em torno de 50 milhões, faz refletir. Segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde, seriam provocados 1,5 a 3 milhões de abortos por ano Brasil. Por complicações no aborto, 438 mil mulheres precisaram ser internadas e 1.500 morreram em 1994. (BARCHIFONTAINE, Christian. P. PESSINI, Leo, 2002.p. 225)

Contemporaneamente o tema “aborto” tem gerado muita polêmica, e popularmente têm-se analisado esta questão mais do ponto de vista emocional que racional. Ainda não existe um ponto passivo, nem uma verdade estabelecida. Porém, juntos podemos refletir sobre o assunto levando em consideração múltiplos aspectos da vida humana, sem permanecer apenas no campo biológico, procurando vislumbrar também os aspectos físicos, sociais, psíquicos e espirituais.

Define-se como aborto a expulsão ou extração de toda ou qualquer parte da placenta, com ou sem um feto, vivo ou morto, com menos de quinhentas gramas ou estimadamente menos vinte semanas completas. Conceitua-se como aborto espontâneo quando este acontece por causas naturais, e provocado quando ocorre com a intervenção do homem. As causas que costumam originar o aborto provocado segundo BARCHIFONTAINE, Christian. P. PESSINI, Leo, 2002 são denominadas “indicações”. As indicações podem ser assim classificadas:

a) Indicação eugênica, se o aborto é provocado para livrar-se de um feto com taras (deformações ou anomalias);

b) Indicação social, se interrompe a gravidez para não arcar com a carga social e econômica que comporta;

c) Indicação médica ou terapêutica, se o intuito é salvaguardar a vida ou saúde da mãe;

d) Indicação ética, se com a interrupção da gravidez pretende-se pôr um paliativo no erro moral ou eliminar uma desonra social. (BARCHIFONTAINE, Christian. P. PESSINI, Leo, 2002. p. 206).

e) No que diz respeito a Legislação brasileira, no artigo 128 do Código Penal, admite-se o aborto, mediante autorização judicial, no caso específico em que a mãe possa correr perigo de perder a vida e no caso de estupro.

Bioética (Parte 06/08)


ENTRE DOIS MUNDOS

Sabemos por meio da mídia que o Brasil está na vanguarda das pesquisas do tratamento contra o câncer, e que nos últimos anos temos desenvolvido tecnologia de ponta que derrubou muitos mitos sobre a doença cujo até mesmo o nome era temeroso pronunciar. (VALLADRES e BERGAMO, maio. 2005) Por outro lado, a mesma imprensa veiculou que a população brasileira tem acesso precário ao tratamento contra esta doença (SOARES, outubro. 2005). Apenas para efeito de comparação, ainda que isto seja complexo, devemos considerar que a despeito de todos os problemas relativos a distribuição de renda, guerras, e pobreza generalizada e escassez de recursos, bem como a falta de acesso e produção de tecnologias que assola o continente africano, o Brasil tem padrões bastante semelhantes aos dos africanos em relação ao tratamento de câncer em geral.

(...) como operário, índio, escravo africano ou explorado asiático do mundo colonial; como corporalidade feminina, raça-não-branca, gerações futuras que sofrerão em sua corporalidade a destruição ecológica; como velhos sem destino na sociedade de consumo, crianças de rua abandonadas, imigrantes estrangeiros refugiados, etc (...) ( DUSSEL, 2000, p. 213)

O modo de produção e exploração capitalista consome os recursos naturais de forma indiscriminada. Se não bastasse, os produtos desta exploração estão ao alcance apenas de algumas elites que possuem recursos para manter o acesso a tais produtos.

Tal é o preço que a sociedade paga para dar as belas damas da burguesia o prazer de usar rendas – e não é barato? Somente alguns milhares de operários cegos, algumas filhas de proletários tísicas e uma geração raquítica daquela população transmitirá as suas enfermidades aos filhos e netos. E que importa? Nada, absolutamente nada. A nossa burguesia (...) continuará a ornamentar com rendas as suas esposas e filhas. Que bela coisa, a serenidade de alma de um burguês Inglês? ( ENGELS, 1985 p. 278 ss )

Denotamos a exploração do trabalho humano e da natureza em geral, as indústrias que causaram e causam a destruição da camada de ozônio, hoje ganham dinheiro com protetores solar. Os textos do início da produção industrial, das primeiras décadas do século XIX na Inglaterra, nos mostram que, longe de serem resolvidos os problemas se agravam a medida que o sistema capitalista se desenvolve. Vejamos com Engels, (1985), como esta situação é recorrente na história.

Nas minas de carvão da Cornualha [Inglaterra] trabalham, quer nas galerias subterrâneas, quer na superfície, cerca de 19.000 homens e 11.000 mulheres e crianças(...) nas minas de carvão e de ferro, onde o método de exploração é mais ou menos o mesmo, trabalham crianças de 4, 5 e 7 anos. A maioria tem no entanto mais de 8 anos. Empregavam-nas no transporte do minério do local de extração à galeria dos cavalos ou até o poço principal ou então abrir ou fechar as portas rolantes que separam os diferentes compartimentos da mina, antes e depois da passagem dos operários e do material. Habitualmente, são os menores que estão encarregados de guardar essas portas; têm de ficar sentados 12 horas por dia na obscuridade, sós num corredor estrito e na maior parte dos casos, úmido, sem ter o trabalho suficiente que justifique esse aborrecimento embrutecedor criado inação total. (...) Verifica-se muito freqüentemente que as crianças mau chegam em casa se atiram para o soalho em frente ao fogo e adormecem instantaneamente, não podendo engolir a menor migalha de comida, (...) é mesmo freqüente que eles se deitem exaustos no meio do caminho para casa e a noite, quando os pais vão procurá-los, são encontrados dormindo. Parece que essas crianças passam geralmente a maior parte domingo na cama para se recompor um pouco do cansaço da semana; um número muito pequeno freqüenta a igreja e a escola (...) Essas pessoas vivem no campo e em regiões abandonadas e desde que realizem o seu duro trabalho, ninguém a não ser a polícia se ocupa deles. Por essa razão, e também por que mandam as crianças desde a mais tenra idade, a sua formação intelectual é totalmente negligenciada. (...) Só existe, portanto, um pequeno número de mineiros que sabem ler, e menos ainda que sabem escrever. (ENGELS, 1985, p. 273 – 282)

Um robô coloca moléculas de DNA em placas de vidro que, submetidas à ação de raios ultravioletas, produzem reação química capaz de distinguir os genes das células sadias das doentes. Instrumentos identificam mutações genéticas nas células, equipamentos que fazem seqüênciamento do DNA em larga escala. Considerações tecnológicas que configuram um cenário típico de primeiro mundo, parte da rotina dos pesquisadores dos institutos de pesquisa brasileiro de tecnologias biomoleculares e celulares, que são reconhecidos internacionalmente.

Os pesquisadores do Projeto Genoma Humano do Câncer superam em termos de resultados os laboratórios das grandes potências mundiais, como os EUA, Inglaterra, Alemanha, Suiça entre outras. Nossos laboratórios conseguiram em menos de um ano identificar mais de um milhão de seqüências de genes de tumores comuns no Brasil. Contudo, se este ambiente é criado nos laboratórios brasileiros, uma avaliação estatística demonstra que há um precipício crescente entre o conhecimento científico e o tratamento destes doentes no Brasil. Dados fornecidos pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) apontam que ao passo que na Europa e nos EUA um paciente de câncer de intestino vive em média vinte meses após o período crítico da doença, no Brasil a sobrevida é de apenas doze meses.

De acordo com o (INCA) Instituto Nacional de Câncer, a sobrevida nos países desenvolvidos, após cinco anos de tratamento é de 74% dos pacientes nos casos de câncer de mama, enquanto no Brasil e nos países em desenvolvimento é no máximo de 51%. Nos casos do câncer de pulmão, a sobrevida nos países desenvolvidos é de 21% e nos países subdesenvolvidos é de 10%. Diante da situação apresentada, e para dar continuidade a discussão sobre o acesso aos benefícios da ciência, devemos nos perguntar por que o acesso às tecnologias de ponta não chegam às camadas populares da sociedade numa realidade em que o Brasil possui tecnologia avançada.

Bioética (Parte 05/08)


TENDÊNCIAS NA BIOÉTICA

Não se tem mais a ilusão de uma ciência neutra ou desinteressada. Logo, quando se fala de tendências, entendemos que estas estão relacionadas a certos interesses e compreendê-los é essencial para a reflexão filosófica. Para tanto abaixo relacionamos a lista das principais tendências discriminadas por Barchifontaine, e Pessini, (2001).

Diego Garcia, para falar de história da bioética, menciona três grandes tendências, subsidiadas correspondentemente por correntes filosóficas, antropológicas, sociológicas e práticas médicas sanitárias: 1. A tradição médica e o critério do bem do enfermo: o paternalismo médico; 2. A tradição jurídica e o critério de autonomia: os direitos do enfermo; 3. A tradição política e o critério de justiça: o bem de terceiros.

1) Principalismo – centrado especificamente na ética biomédica, desenvolve quatro princípios para guiar a ética da ação médica, especificamente clínica, nas diversas situações. Os princípios são os de Beneficência, Não-maleficiência, Autonomia, Justiça. Existe uma forte acentuação da autonomia do doente.(...)

2) Liberalismo em bioética – esta tendência, com lastro antecedente em T. Hobbes, J. Locke e mesmo Adam Smith, (...) busca nos direitos humanos a afirmação da autonomia do indivíduo sobre seu próprio corpo e sobre todas as decisões que envolvam sua vida. Valoriza a consciência de si como forte constitutivo da pessoa e faz de sua ausência na vida embriológica e fetal um argumento para caracterizar essa fase como vida humana pessoal. Sendo propriedade pessoal, nada impede que o indivíduo possa eticamente negociar seus próprios órgãos e seu sangue.

3) Bioética de virtudes – Dando ênfase às atitudes que presidem éticamente a ação, e ao mesmo tempo tendo como pano de fundo um ethos social pragmatista e utilitarista, propõe-se a boa formação do caráter e da personalidade ética(...)

4) Casuística – Tende a acentuar a importância dos casos e suas particularidades de onde podem ser tiradas as características paradigmáticas para se fazerem analogias com outros casos(...).

5) Feminista – Sem dar obviamente uma força mais do que conotativa ao termo feminista, anotamos aqui talvez nem tanto uma tendência, mas a crítica e as contribuições que vêm do feminismo(...)

6) Naturalista – Com recurso à lei natural, procura estabelecer bens fundamentais da pessoa humana, a começar por sua própria vida como um todo e para condições básicas que constituam sua dignidade(...)

7) Personalista – Como corrente personalista na bioética indicamos aqui a ampla visão antropológica que incide na ética valorizando, entre outras, a dignidade humana como centro da elaboração ética, por sua capacidade e vocação a dar sentidos as coisas e ao próprio rumo de sua vida(...)

8) Contratualismo – Essa vertente considera a complexidade das relações sociais hoje e evidencia as insuficiências de fundo da ética Hipocrática(...)

9) Hermenêutica – Dá ênfase à condição interpretativa do ser humano em geral e busca leitura específica dessa condição para a natureza interpretativa da situação bioética(...)

10) Libertária (de libertação) – A partir da experiência de condições de vida principalmente nos Terceiros mundos, esboça-se também uma proposta de bioética de libertação. Com base antropológico-filosófica no princípio da alteridade (Levinas, Dussel), enfatiza as situações concretas em que se encontram os sujeitos ameaçados em suas vidas e desafiados, portanto, a lutar por viver. Busca situar a Bioética numa análise estrutural da sociedade como produção da vida e das condições de saúde, mas também de exclusão; busca propostas em processos capazes de realizar a inclusão das pessoas como sujeitos e semelhantes.(...). (GARCIA, Diego. In: BARCHIFONTAINE, Christian. P. PESSINI, Leo, 2001. p. 26-29).

Bioética (Parte 04/08)


JURAMENTO DE HIPÓCRATES

Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio, Higeia e Panacea, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue: estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes.

Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva. Conservarei imaculada minha vida e minha arte. Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam. Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução, sobretudo longe dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados. Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto. Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça. (www.gineco.com.br/jura)

Bioética (Parte 03/08)


BIOÉTICA GERAL

Podemos dizer que a bioética geral trata dos problemas éticos como um todo, está no campo da axiologia, ou seja, ciência dos valores. O ser humano naturalmente atribui valores às coisas, e assim escolhe e toma decisões sobre o que é mais importante, ou o que lhe é preferível. A palavra ética, vem do grego, ethos, significa etimologicamente lei, norma, e em alguns casos moral (ver textos sobre a ética). A bioética geral se ocupa dos princípios originários da ética médica, tratando das fontes documentais, institucionais da própria bioética.

Bioética Especial

Concentra seu foco de atenção de forma específica nos grandes problemas enfrentados pela ciência tanto no campo da medicina como da biologia, tais como: engenharia genética, aborto, eutanásia, experimentação clínica, etc... que são os grandes eixos temáticos da bioética, contudo não deixam de estar ligados a bioética geral.

Bioética Clínica ou de Decisão

Analisa os fatos concretos da práxis médica. Examina quais são os valores que estão em jogo, e quais devem ser os caminhos a percorrer na experimentação científica. Estabelece critérios de validação para normatizar o fazer médico, estabelecendo um padrão de conduta. Está diretamente ligado ao juramento hipocrático, que é realizado ainda hoje, e suas implicações éticas. Vale salientar que o juramento de Hipócrates tem mais ou menos 2800 anos, originário da Grécia Antiga.

A Bioética é, hoje, um assunto que perpassa todos os níveis da vida e nos setores mais distintos de nossa sociedade, tais como as áreas da saúde, da política, da sociologia, da economia, da ecologia, só para lembrar as que estão mais em evidência. Por isso, faz parte do nosso dia-a-dia, e a sua reflexão começa a interferir sempre mais em nossas vidas. A Bioética quer seja considerada ciência, disciplina ou movimento social, para nós é antes de tudo uma dinâmica reflexiva que procura resgatar a dignidade da pessoa humana e sua qualidade de vida desde o nível “micro” até o nível “macro”. (BARCHIFONTAINE, 2001. p. 09)

Mas seria a Bioética uma ciência com estatuto próprio? Ou uma disciplina de uma ciência? Um movimento de sensibilização social? Mas é certo que ela se estabelece com forte caráter interdisciplinar diante das ciências e campos em que a vida é discutida.

Bioética (Parte 02/08)


O QUE É BIOÉTICA?

A ciência tem desenvolvido inovações e tecnologias com uma velocidade surpreendente. A última metade do século XX conheceu o avanço e a mesclagem das ciências biológicas com as biotecnologias dando origem às biotecnociências. As sociedades humanas se maravilham e se espantam num misto de euforia e medo.

O ser humano, com o desenvolvimento da ciência, programa cada vez mais sua vida, sua sociedade, com o intuito de sofrer cada vez menos com o acaso e com as intempéries da natureza. No entanto, quando se olha a humanidade como um todo, sofrimentos desnecessários continuam a fazer do dia-a-dia da maioria das pessoas, e muitas espécies de seres vivos continuam a serem levadas a extinção. (SANCHES, 2004, p. 13).

Por isso, a intervenção na natureza deve ser pensada, planejada para que a segurança e o bem-estar comum sejam garantidos. A Bioética é um ramo da ética, embora reivindique sua autonomia, enquanto disciplina que trata da investigação e problematização específica das práticas médicas, das ciências biológicas e das relações da humanidade com o meio ambiente. Dentro desta perspectiva a bioética aborda a questão da responsabilidade e autoridade do médico frente ao direito e dever do paciente, bem como das intervenções e limites aceitáveis de certas experiências, tais como o aborto induzido; inseminação artificial e esterilização; escolha e pré-determinação do sexo: a eutanásia; quebras de patentes; projetos de pesquisa sobre genética (células tronco, transgênicos, clonagem humana e de animais); biopirataria, uso de animais e seres humanos como cobaias, etc... Não ignorando que a cada nova descoberta e inovação podemos ter um novo problema para a bioética.

Se por um lado o conhecimento científico passou a ocupar um lugar preponderante no mundo moderno, desde as tecnologias utilizadas dentro das casas, nas empresas e indústrias, por outro lado, cada vez mais se desenvolve a preocupação latente como os resultados benéficos ou perigos da ciência. Questiona-se qual é o preço que a sociedade tem que pagar por certos “avanços” tecnológicos, e as implicações éticas e morais de seus resultados.

Existe uma ciência chamada deontologia que responde as questões éticas de uma categoria profissional. A Bioética extrapola a deontologia e abrange a pluralidade científica como um todo.

Bioética (Parte 01/08)

Introdução

Dentre muitos sites bizarros da rede (Internet), existe um, em especial, que chama a atenção por tratar da venda on-line de gatos em garrafa. Estamos falando de um enfeite ou peso para papel nada convencional. Num dos supostos sites relacionados com a venda deste souvenir, temos a seguinte explicação: nas primeiras semanas de vida, os ossos desses felinos ainda estão moles e maleáveis, por isso, depois de introduzidos dentro de uma pequena garrafa, com o formato desejado pelo cliente, eles tomam a forma da referida garrafa, ocupando todos os espaços do interior à medida que crescem.

A vida é garantida – se é que se pode chamar de vida – por meio de uma sonda introduzida na garganta do bichano. Esporadicamente se alimenta o gatinho com produtos químicos, utilizando uma seringa. Na outra extremidade, coloca-se a sonda de saída de excrementos.

Internautas afirmam que é mais uma das “bobagens” que circulam na rede, outros fazem campanha contra ou a favor. Também circula que o FBI retirou o site da rede.

Ainda que até aqui estejamos no campo hipotético, a questão é que tanto gato em garrafa como outras atrocidades do gênero são cientificamente possíveis, pois, existem técnicas que tornam exeqüível o que num passado recente era impossível.

Diante dessas informações, que podem nos causar estranhamento, náusea e repulsa, algumas questões são presentes.

Existe um regimento para avaliar os limites da ciência? E quanto à clonagem de seres humanos? Experiência com células tronco? E o aborto, será melhor legalizá-lo? Quem tem autoridade, e de quem é a responsabilidade de avaliar esses e outros assuntos relacionados às experiências científicas e seus efeitos?