"Nada se espalha com maior rapidez do que um boato" (Virgílio)

Ironia e Filosofia (Parte 05/10)

Sócrates e Alcebíades

A Ironia na História da Filosofia

A ironia é uma forma de tratar o saber e aparece na história também como reação ao dogmatismo, isto é, quando existem verdades impostas pelas crenças ou pela autoridade, impedindo as pessoas de pensar e manifestar suas opiniões. Conforme Merleau-Ponty,

(...) a vida e a morte de Sócrates são a história das difíceis relações que o filósofo, que não é protegido pela imunidade literária, mantém com os deuses da cidade, isto é, com os outros homens e com o absoluto imobilizado cuja imagem lhe apresentam (...) ( MERLEAU-PONTY, s/d., p. 46)

O exercício da filosofia, enquanto interrogação sobre as várias instâncias do real, questiona a ordem instituída e, à medida que analisa e pondera, interfere na ação. Nas suas observações sobre Sócrates Merleau-Ponty acrescenta:

(...) a ironia de Sócrates é uma relação distante, mas verdadeira, com outrem, que exprime este dado fundamental de que cada um, sendo inelutavelmente ele próprio, no entanto se reconhece no outro, e procura desligar um do outro pela liberdade (...) ( MERLEAU-PONTY, s/d p. 51)

A ironia é uma forma de filosofar que retorna em outros momentos da história, com outros sentidos: por exemplo, Montaigne, ao afirmar que “nem ele nem ninguém saberá nada de certo”, (LEFEBVRE, 1969 p. 14) aplica a ironia no contexto do que se chama ceticismo.
Montaigne foi um filósofo do século XVI que viveu numa época de muitos conflitos, transformações sociais e questionamentos do pensamento vigente na idade média. O pensamento de Montaigne refletiu estas contradições de tal modo que as oscilações, as alusões, a ausência de sistematicidade, tornam-no um pensador peculiar. Como outros intelectuais de seu tempo, buscou inspiração na antigüidade, mais precisamente no ceticismo grego e romano.
O pensamento cético pode ser encontrado em Protágoras, cujas proposições relativizam todo o conhecimento, isto é, o homem é a medida de todas as coisas, não havendo certeza a respeito do conhecimento da natureza e das coisas. Curiosamente, ao afirmar que não há possibilidade de um conhecimento certo sobre as coisas, os céticos aproximam-se da proposição socrática “só sei que nada sei”. Sócrates, porém, confia na razão e empenha-se em procurar a verdade.

CETICISMO

“O ceticismo foi desenvolvido inicialmente por Pirro (367-275 a.C.) (...) Segundo Pirro, o homem não é capaz de atingir qualquer verdade no âmbito da ciência ou da filosofia. As únicas “verdades” são de caráter subjetivo e não podem ser consideradas propriamente verdades, pois não passam de simples impressões, que não nos garantem a certeza. Não temos acesso à essência das coisas, conhecemos somente as suas aparências. Diante disso, a mais sábia das atitudes do homem é a abstenção ou suspensão dos juízos (epoké). A versão mais conhecida do ceticismo é o probabilismo. Nesta versão incentiva-se a desconfiança permanente em relação à verdade sem, no entanto, fechar-se completamente à hipótese de sua probabilidade. Assim, cético é o que observa, desconfia, e espera o desenrolar dos fatos para, só então, se pronunciar (em grego, sképsis significa o olhar de quem analisa, considera)”. (HRYNIEWICZ, 2001, p. 288)


Dos nossos ódios e afeições

“O temor, o desejo, a esperança, jogam-nos sempre para o futuro, sonegando-nos o sentimento e o exame do que é, para distrair-nos com o que será, embora, então, já não sejamos mais. ‘Todo espírito preocupado com o futuro é infeliz’”.
“ ‘Fazer aquilo para que és feito e conhece-te a ti mesmo’, eis um grande preceito amiúde citado em Platão. E cada um dos membros dessa proposição já nos apontam o nosso dever; e traz em si o outro. Quem se aplicasse em fazer aquilo para que é feito perceberia que lhe é necessário adquirir antes de mais nada o conhecimento de si próprio e daquilo que está apto. E quem se conhece não erra acerca de sua capacidade, porque se aprecia a si mesmo e procura melhorar, recusando as ocupações supérfluas, os pensamentos e os projetos inúteis. Da mesma forma que a loucura não se satisfaz ainda que cedamos a seus desejos, a sabedoria, sempre satisfeita com o presente, nunca se descompraz consigo mesma. A ponto de Epicuro considerar que nem a previdência nem a preocupação com o futuro são peculiares ao sábio”. (MONTAIGNE, 1972, p. 17)

A ironia socrática interroga para buscar um sentido oculto e desconhecido pelo homem, ancorado em crenças e dogmas. A ironia moderna descobre o duplo sentido e, com ele, a relatividade da verdade, a fragmentação e a fraqueza do pensamento que não consegue consolidar-se em sistema. Ambos se aproximam na prática do duvidar e interrogar, no valor que atribuem ao homem, na sua dignidade sedimentada na liberdade de pensamento e em, principalmente, no reconhecimento de sua fragilidade existencial.

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